Patrícia Selonk é a protagonista de ‘Hamlet’, uma peça que pode absorver os conflitos do tempo em que é encenada
Patrícia Selonk é a protagonista de ‘Hamlet’, uma peça que pode absorver os conflitos do tempo em que é encenada | Foto: Leo Aversa/Divulgação



A luta desmedida pelo poder. Um rei traído pela esposa e assassinado pelo próprio irmão, que comete o crime para assumir o comando de uma corte corrupta e manipuladora. A história de Hamlet nunca soou tão contemporânea, apesar de ter sido escrita por Shakespeare no início do século XVII. A atualidade do texto que e que retrata perfeitamente o colapso político e os conflitos existenciais que o mundo atravessa motivou a montagem que marca as comemorações de 30 anos de trajetória da Armazém Companhia de Teatro. Após uma festejada temporada de estreia no Rio de Janeiro, o espetáculo abre a programação da 49ª edição do Filo (Festival Internacional de Londrina), com sessões nesta sexta-feira (11), às 20h30, e sábado (12), às 19h30, no Teatro Ouro Verde. O evento conta com apoio do Grupo Folha de Comunicação.

Hamlet narra a história do príncipe da Dinamarca, que tem como objetivo vingar a morte de seu pai, que foi envenenado pelo próprio irmão, Cláudio que para assumir o poder casou-se com a esposa do rei assassinado. O personagem tem visões de seu pai, que revela ter sido envenenado pelo próprio irmão e exige que o filho vingue sua morte matando o novo rei. O diretor Paulo de Moraes optou pela construção de um protagonista cheio de fúria fazendo uma conexão direta com a loucura que permeia nosso tempo. O espetáculo tem um clima de suspense valorizado pela trilha sonora com músicas punk executadas em cena. A adaptação do Armazém Cia de Teatro traz novamente a já consagrada parceria entre Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, que assina a tradução da obra. "Tentei deixar o texto o mais próximo possível do público contemporâneo", afirma Maurício.

O papel do protagonista é vivido pela atriz Patrícia Selonk, que divide a cena com outros seis personagens. Hamlet estreou em junho e foi indicado ao Prêmio Cesgranrio de Teatro 2017 nas categorias espetáculo, direção, iluminação, cenografia, figurino e trilha sonora. Prestes a completar 30 anos de atividades ininterruptas no final deste ano, a companhia criada em Londrina, em 1987 e sediada no Rio de Janeiro desde 1998, conta com mais de 30 prêmios nacionais e seis internacionais no currículo.

Paulo de Moraes: "O que mais interessa é o posicionamento sobre a narrativa"
Paulo de Moraes: "O que mais interessa é o posicionamento sobre a narrativa" | Foto: Milton Dória/Divulgação




Em entrevista à FOLHA por e-mail, o diretor Paulo de Moraes comentou o processo de criação de Hamlet e também a volta do Armazém ao palco do Teatro Ouro Verde.

Por que a escolha de Hamlet na celebração dos 30 anos da Companhia Armazém?
A Armazém Companhia de Teatro é acostumada a processos que resultam na criação de uma dramaturgia própria (vide "Inveja dos Anjos" e "A Marca da Água" - que levaram o Prêmio Shell de Melhor Autor em 2008 e 2012, além de "O Dia em que Sam Morreu - Prêmio Cesgranrio de Melhor Texto em 2014), mas nesse momento eu queria me voltar para um outro tipo de processo, onde o que mais interessa é o posicionamento sobre a narrativa. Como quase todos os textos da companhia são escritos em parceria, por mim e Maurício Arruda Mendonça ou com Jopa Moraes,como em nosso trabalho anterior, desta vez eu não queria ter uma relação afetiva com o autor, mas uma relação com mais atrito, mais provocativa. No processo de pesquisa, lemos uma montanha de textos, Hamlet foi o primeiro, no fim voltamos a ele porque sentíamos que existia uma atualidade incrível ali e uma possibilidade de posicionamento político. A ideia era encontrar um Hamlet de nosso tempo. Um Hamlet cheio de som e fúria. Não numa atualidade forçada, mas ressaltando aspectos da obra que dialogam com esse coquetel de conflitos contemporâneos que jorra todos os dias nas grandes cidades do mundo.

Qual a conexão deste texto de Shakespeare com o atual momento político no Brasil e no mundo?
Hamlet é a história da destruição de uma ordem estabelecida. O mundo meio que vive isso hoje. Uma espécie de colapso de um tempo, um momento em que algumas palavras perdem o sentido, como democracia, por exemplo. E outros termos surgem com força, como "pós-verdade" ou "fake news". O teórico Jan Kott dizia que "Hamlet" é uma peça-esponja, que absorve as questões centrais do tempo em que é posta em cena. Acredito nisso. Com "Hamlet" conseguimos um diálogo direto com esse momento insano do mundo, sem a necessidade de sermos ilustrativos ou literais.

Por que a escolha de uma atriz para o papel principal desta montagem?
Por que não?

O punk na trilha sonora do espetáculo tem o objetivo de encorpar a dramaticidade do texto ou faz referência ao barulho que significa o nosso tempo?
Não existe nenhuma necessidade de encorpar a dramaticidade do texto. A música em cena é contemporânea, como de resto tudo em cena é contemporâneo. Tratamos Shakespeare como um genial autor recém-descoberto com muita coisa urgente pra dizer sobre a guerra, sobre a loucura do mundo e sobre nossos líderes políticos modernos.

O que representa para a Cia Armazém abrir o Filo reinaugurando de certa forma o palco do Teatro Ouro Verde ao apresentar o primeiro grande espetáculo teatral no local após o incêndio sofrido em 2012?
Que alegria estar aqui de volta! Quando a companhia se mudou pro Rio de Janeiro, em 1998, fizemos uma apresentação de despedida, num Ouro Verde lotado. Foi emocionante. Voltamos depois disso algumas vezes e sempre foi especial. Quando soube do incêndio, uma sensação de que a história daquele lugar estava virando cinzas, me deixou muito triste. E uma parte da nossa história estava indo embora também. Mas agora o Ouro Verde está de volta, vamos lutar por ele, vamos resistir, porque o momento hoje é sombrio e o teatro, a música, a dança, a cultura se fazem muito necessárias num momento como esse.


EU E O PERSONAGEM
Patrícia Selonk fala da construção de Hamlet

Quando Paulo de Moraes me contou seu interesse em montar Hamlet e de sua vontade que eu fizesse o personagem, a primeira coisa que me veio a cabeça foi "não vou dar conta" mas, aos poucos, fui percebendo que eu não precisava "dar conta" de nada, que o mais importante era colocar Hamlet no lugar dele: o palco. Porque embora seja uma obra literária magistral, é uma peça de teatro.

As dificuldades para representar a personagem foram muitas:
Encontrar a embocadura das palavras, para parecer que o príncipe tem uma forma elaborada de se expressar verbalmente mas, parecendo muito natural para ele.

Os solilóquios: como dizer aquelas palavras que são o pensamento dele em ação. Como fazer esses momentos chegarem no público, dar vontade de simplesmente ouvir e mergulhar na interioridade da personagem.

O lado violento de Hamlet, como foi difícil achar isso! Como foi difícil deixar essa violência crível! E os desafios continuam…


Serviço:
Hamlet – com Armazém Cia de Teatro
Quando – Sexta-feira (11), às 20h30, e sábado (12), às 19h30
Onde – Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85)
Quanto – R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Pontos de venda – Bilheteria no Shopping Royal Plaza e www.diskingressos.com.br

mockup