Na montagem mais perene e premiada do Armazém Companhia de Teatro – ‘‘Alice Através do Espelho’’ – o público saía do espetáculo com a grata sensação de ter retornado à infância. Esse sentimento motivou o diretor Paulo de Moraes a buscar na memória afetiva sensações e imagens de sua infância. De imediato surgiu a imagem de um telhado. ‘‘Quando eu brigava com a minha mãe subia numa árvore e ia para o telhado. Eu via o mundo pelo telhado’’, relembra Paulo de Moraes, que passou a infância em Umuarama, noroeste do Paraná.
No Rio de Janeiro, onde a Companhia está sediada há quatro anos, não existem essas referências de cheiro de chuva levantando poeira e nuvens vermelhas no céu, guardadas nos escaninhos da memória de Paulo de Moraes. Esse tema serviu de base para discussão com o dramaturgo Maurício Arruda Mendonça e depois da maceração da idéia surgiu a peça ‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’, que estreou no ano passado no Rio de Janeiro, e agora será apresentada em Londrina. A peça está em cartaz de hoje até o dia 14 de abril, de quinta à domingo, às 21 horas, no Galpão localizado na Avenida Leste-Oeste com Avenida Rio Branco.
No mergulho na memória, surgiu a relação entre a irmã Das Dores, irremediavelmente triste, e Remédios, o irmão com o destino de curar a infelicidade dela. A peça tem início num telhado, quando quatro amigos se encontram para receberem as cinzas de outro amigo morto. O diretor optou por suprimir a ação nesse quadro. Tanto emocional como fisicamente a situação está amparada na fragilidade. É o tempo da memória que dita as regras. A delineação dos personagens acontece pelo fio das lembranças. Enquanto os amigos estão confabulando sobre o passado, as telhas se partem e eles caem dentro do antigo casarão abandonado.
Depois da queda, encontram dois mendigos provocadores, que a todo momento tenta trazê-los para o tempo presente, deixando-os, por vezes, indefesos. Nesse segmento do espetáculo, as provocações decantam uma certa delicadeza latente nos personagens.
Sobre o processo de depurar imagens e sensações importantes da infância e adolescência, o diretor avalia que não se sabe ao certo o que vai dar quando se faz um acerto de contas. ‘‘O certo é que saí mais adulto desse processo de mexer no baú de lembranças. Essas coisas te levam a crescer’’, avalia Moraes.
No elenco da peça ‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’ estão Patrícia Selonk (Das Dores), Simone Mazzer (Trap); Marcos Martins (Tuim); Sérgio Medeiros (Frederico); Fabiano Medeiros (José); Ricardo Grings (Remédios) e Simone Vianna (Maria). A cenografia coroada com o Prêmio Shell 2001 leva assinatura de Paulo de Moraes e Gelson Amaral e o figurino de João Marcelino.
O Armazém Companhia de Teatro deve lançar no mês de junho um DVD desse espetáculo e um documentário com a trajetória do grupo, patrocinado pela BR Distribuidora, que também está patrocinando a turné nacional do grupo.
Serviço: ‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’, de Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, direção de Paulo de Moraes, de hoje até dia 14 de abril, de quinta a domingo, às 21 horas, no Galpão da Av. Leste-Oeste esquina com Av. Rio Branco. Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes).

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