Armazém mergulha nas HQs
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de outubro de 2002
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Habitantes de uma grande cidade em seu cotidiano pessoas comuns surpreendidas em momentos de rara intensidade. Esse é o retrato da história contada pelo Armazém Companhia de Teatro em seu novo espetáculo, ''Pessoas Invisíveis'', que estréia hoje no Rio de Janeiro e comemora os 15 anos de trabalho do grupo. Criado em Londrina, o Armazém está radicado no Rio de Janeiro desde 1998, desenvolvendo suas atividades na Fundição Progresso. Em julho, lançou o primeiro DVD do teatro brasileiro, uma versão digital de ''Da Arte de Subir em Telhados'' (leia texto nesta página).
Dirigido por Paulo de Moraes, o novo trabalho partiu de uma pesquisa da obra do cartunista norte-americano Will Eisner, criador do personagem de histórias em quadrinhos (HQs) ''Spirit''. Eisner escreveu histórias que revelam o submundo de personagens das grandes metrópoles.
O texto, escrito por Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, parte da vida de três habitantes das grandes cidades: Antonio Tonatti (Patrícia Selonk), um músico frustrado; Monroe Mensh (Marcos Martins), um sujeito alheio a tudo e todos; e Geraldo Shnobble (Fabiano Medeiros), um homem que possui o incrível dom de voar.
Na história, todos já estão mortos, mas aparecem como fantasmas que não conseguem desligar-se do edifício onde viveram. No transcorrer da montagem, juntam-se a eles 45 personagens um sempre afetando a vida do outro, sem perceber exatamente como isso aconteceu. Paulo de Moraes lembra que Eisner trabalha com a idéia de que muito do que acontece numa grande cidade é inexplicável e - ao mesmo tempo - mágico.
Em ''Pessoas Invisíveis'', o Armazém desenvolveu um trabalho de improvisação baseado em temas e roteiros da obra de Eisner. ''Partimos da história 'Contrato com Deus'; estudamos planos, a questão gráfica e os personagens. Deixamos o livro de lado e trabalhamos com a memória e a espontaneidade dos atores, buscando subtemas que enriquecessem a criação. Fizemos isso com um vasto material'', conta o diretor.
A memória é uma ponte entre o espetáculo anterior ''Da Arte de Subir em Telhados'' (2000) e ''Pessoas Invisíveis''. Paulo de Moraes explica que essa ligação entre os trabalhos é uma característica do grupo: discutir nas montagens atuais, sob outros aspectos, temas e subtemas levantados anteriormente.
Nessa montagem, os atores trabalharam com referência na transposição da linguagem das HQs para o teatro, na valorização da fragmentação das HQs, nos desencontros dos personagens pela ação da cidade, na solidão da metrópole. ''É natural criar um universo próprio de montagem. A gente fez exercícios de fragmentação, outros de forma naturalista, para encontrar um ponto em comum''.
Mais do que se ater à transposição da linguagem das HQs para o teatro, o Armazém procurou fazer com que sua preocupação se voltasse para questões como a solidão urbana e o patético das relações urbanas. ''A parte estética é a transposição da linguagem, mas isso não é o essencial''.
O diretor diz que existiu um cuidado de evitar as armadilhas de uma imitação realista em cena, embora o ponto de partida da história fosse muito comum. ''Não queríamos personagens que fossem reais. Quisemos criar uma espécie de supra-realidade, dando um amplo painel da vida nos grandes centros urbanos''.
A idéia de trabalhar com a obra de Will Eisner não é nova para o Armazém. Paulo de Moraes lembra que, desde a década de 80 quando o grupo ainda estava em Londrina havia um interesse nesse sentido. Agora, com a comemoração dos 15 anos, a companhia avaliou ser um momento para retomar uma referência da história do grupo. ''Tínhamos a vontade de trabalhar com uma linguagem fragmentada e o Eisner também tem um universo muito próximo da gente'', conta.
SERVIÇO:
''Pessoas Invisíveis'', espetáculo da Armazém Companhia de Teatro, baseado na obra do cartunista Will Eisner. Estréia para hoje, às 20h30, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. Direção: Paulo de Moraes. Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes. Elenco: Patrícia Selonk, Marcos Martins, Fabiano Medeiros, Simone Mazzer, Sergio Medeiros, Simone Vianna, Stella Rabello e Marcelo Guerra. Iluminação: Paulo César Medeiros. Figurinos: João Marcelino. Cenografia: Paulo de Moraes e Carla Berri. Trilha Sonora: Paulo de Moraes. Temporada: quinta-feira a domingo, às 20h30. Ingressos: R$ 15,00 (quintas e sextas) e R$ 20,00 (sábados e domingos). Reservas pelo telefone (21) 9871-2265.


