Para acabar com as tristezas e o clima opressivo vivido por uma família, talvez até porque a filha se chamasse Das Dores, a mãe resolve espantar os maus agouros botando o nome de Remédios no filho. Criaria assim uma harmonia de energias, anulando-se os dissabores. Pois bem, Remédios morre e um grupo de amigos está voltando da cerimônia fúnebre onde receberam as cinzas do falecido, quando de comum acordo sobem no telhado de um casarão abandonado para conversar.
É aí, no alto do casarão, que começam a puxar pelo fio da memória, esgarçando o roto tecido da existência. Assim como pisam em terrenos fragilizados pelo tempo, também as telhas se soltam e eles despencam para dentro da casa, onde se encontram dois mendigos bem humorados, Tuim e Trap. As vidas de mundos distintos se mesclam, criando uma nova trama, latejante, estranha, próxima.
Em meio a um clima onírico, repleto de parábolas, estranhamentos e a necessidade vital pela saída é que se passa o enredo de ‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’, espetáculo que o Armazém Companhia de Teatro apresenta a partir de hoje em Curitiba, no Estação Pollo Shop, às 21 horas. A temporada se estende até o dia 24, sendo que nos três últimos dias estará na grade do 11º Festival de Teatro.
Além de responder pela direção, Paulo de Moraes também assina a trilha sonora, a cenografia (com Gelson Amaral) e o texto escrito a quatro mãos com Maurício Arruda Mendonça. No elenco estão Patrícia Selonk (Das Dores), Simone Mazzer (Trap), Marcos Martins (Tuim), Sérgio Medeiros (Frederico), Fabiano Medeiros (José), Simone Viana (Maria), Ricardo Grings (Remédios). O espetáculo foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro/ 2001 - edição carioca - nas categorias de melhor texto e melhor direção e recebeu o prêmio de melhor cenografia em cerimônia realizada anteontem no Rio. Há um ano o grupo também abocanhou o Prêmio Shell/2000 na Categoria Especial, pela qualidade do repertório.
Essa é a carreira que o grupo vem desenvolvendo nos últimos anos no Rio de Janeiro, depois de se projetar nacionalmente a partir de Londrina. Aliás, esta turnê terá passagens por Londrina e Belo Horizonte, antes de chegar a São Paulo. A montagem tem patrocínio da BR-Distribuidora, e graças a esse apoio o grupo pode levar a outras praças um projeto ambicioso onde soma-se o inegável talento de seus integrantes com uma estrutura cênica complexa.
São quase duas toneladas de carga, erguidas com cabos de aço por talhas elétricas, criando assim a casa com paredes de madeira e estrutura modular de alumínio. Mas não termina aí, apenas numa construção.
A platéia é tomada pela surpresa, susto e encantamento já no início, como descreveu Cíntia Laport, da revista ‘‘Luz e Cena’’: ‘‘O espectador entra na sala. Não se sabe muito bem o que está acontecendo. Um fino tule preto deixa tudo na penumbra. De repente, um grito. Um homem voa por cima de nossas cabeças em meio a um céu de pequenas estrelas. Ufa! Que início!’’ Débora Ghivelder, da ‘‘Veja Rio’’, anotou: ‘‘E o céu estrelado da peça é das coisas mais bonitas já vistas nos palcos cariocas nos últimos tempos’’.
O cuidado visual que dá encantamento à ‘‘casa mágica’’, como diz Paulo Moraes, complementa o todo do espetáculo que é um mergulho na memória. Seguindo um trabalho muito particular de pesquisa e criação, o Armazém levou seus atores a trabalharem na improvisação, sem perder de vista as lembranças, os túneis do tempo, emoções adormecidas. Paralelamente houve muita leitura de autores que trafegaram por esses terrenos sensíveis, de Adélia Prado a Beckett, Drummond, Jung e Guimarães Rosa.
Enquanto esse processo se realizava, surgia conjuntamente o texto. ‘‘A partir do material levantado durante a pesquisa, a estória que ia ser contada foi sendo escrita, as cenas se sucederam e os personagens foram ganhando novas características’’, explica Moraes. Houve especial cuidado em não ter somente um tempo real, num mundo real, mas um espaço feito de abstração que é onde esses amigos se encontram. ‘‘Queríamos a construção de um ‘campo de afetos’, um lugar de sonho – como o teatro – onde tudo fosse possível’’.
Serviço: ‘‘Da Arte de Subir em Telhados’’, de Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, direção de Paulo de Moraes. Com Armazém Companhia de Teatro. De 14 a 24 de março, sempre de quinta a domingo, às 21 horas, no Estação Pollo Shop (Centro de Eventos). Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00.

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