Quando não se tem nada, a miséria humana é o melhor que temos para compartilhar, vender, trocar, roubar, matar e correr o risco de morrer empurrado por ela.
  O importante é sobreviver a essa luta desigual que leva os personagens ao limite em ‘‘Mãe Coragem e Seus Filhos’’, espetáculo do Armazém Companhia de Teatro, estréia de hoje na programação do 40º Festival Internacional de Londrina (Filo).
  Um ponto em que a dor tem a poesia da direção de Paulo de Moraes, diretor que iniciou carreira com a Companhia em Londrina, mas que hoje está radicado no Rio de Janeiro.
  Moraes, que conquistou o Prêmio Shell 2007 pela direção de ‘‘Toda Nudez Será Castigada’’, comemora 20 anos de Armazém, encontrando com o novo espetáculo os 30 anos de carreira da atriz Louise Cardoso, que propôs ao diretor a empreitada de montar o texto de Bertolt Brecht (1898-1956). Louise não estará no elenco, sendo substituída por Patrícia Selonk.
  A peça, que este ano foi apresentada no Festival de Curitiba, traz ao Filo um texto escrito durante a Segunda Guerra Mundial. Brecht estava exilado na Escandinávia, ambientando o clássico na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).
  É nesse cenário desolador que uma mãe, Anna Fierling, e três filhos viajam numa carroça. Para sobreviver, a mulher vende mercadorias para os soldados e espoliados do conflito.
  Quando não se tem nada, a guerra pode parecer uma benção, como acredita uma prostituta, personagem de Simone Mazzer.
  Para falar sobre este espetáculo e outras criações da Companhia, o elenco participará de um bate-papo com o público londrinense amanhã, às 14h30, na Casa de Cultura, lançando também o livro ‘‘Espirais’’, que comemora os 20 anos do grupo.
  Na montagem de Moraes, ‘‘Mãe Coragem’’ trocou a carroça por uma fuselagem de avião que, apesar disso, continua sendo uma carroça, carregando todas as as nossas misérias - ainda que acreditemos que cada uma delas seja uma benção.

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