No interior da imobilidade, nem todo empurrão pode provocar movimento. Em algumas situações, um mero empurrão não basta. É preciso mais. Talvez seja necessário um chute no peito, algo que provoque efeito semelhante ao choque médico efetuado durante uma parada cardíaca.
''A Frente Fria Que a Chuva Traz'', espetáculo do grupo Cemitério de Automóveis apresentado no FILO 2004, apresenta a imobilidade como um vento frio que suplica, num balbucio, um cobertor aconchegante. A princípio, gera uma crítica social através de uma abordagem comportamental, em seguida, percorre os corredores das carências humanas durante a caçada do aconchego.
O espetáculo traça um recorte na fotografia de dois pólos. De um lado a prisão da pobreza, e outro a prisão da riqueza. Material e imaterial. Assim, o que seria um argumento batido recebe um terceiro pólo, que acende um novo contexto: a solidão em estado de fuga. A responsável por essa reviravolta é justamente a personagem que vaga sem território.
''A Frente Fria Que a Chuva Taz'' reforça uma das característica da dramaturgia de Mário Bortolotto. Inicialmente trabalha com o humor, com o deboche e com a ironia. Realiza as devidas provocações, traçando um painel geral do contexto que procura retratar. Em seguida, dá uma guinada na condução narrativa instaurando o drama, tanto individual como coletivo, de uma realidade que respira a poeira do trágico.
Num sentido metafórico, a montagem do Cemitério de Automóveis primeiro conquista (ou talvez elimine) o espectador da barriga para baixo, para em seguida conquistá-lo (ou quem sabe eliminá-lo) do peito para cima. Isso significa que existe um mapa desenhado para que a condução do espetáculo afunile seu conteúdo para que não seja flutue na superfície sem destino. Do riso do ventre à agonia do coração.
Assim, a frente fria seria aquela que chega para dizer que precisamos de algo que aqueça nossas vidas. E mesmo que cada um se agarre àquilo que lhe parece mais próximo, ou mais fácil de ser agarrado, é preciso muito mais. Algo que não seja um mero agasalho descartável e momentâneo. Algo que não nos petrifique na mobilidade, como na imobilidade, mesquinha e desprovida de verdade. Algo que não seja mais que um simples cobertor trançado com os mais ínfimos fios do aconchego.

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