Os desejos ocultos passeiam pelas ruas sem serem vistos, trafegam pelas residências sem serem revelados, escalam os corpos com a força das tempestades. São aqueles que os homens se agarram nas noites do pensamento. Mesmo ocultos, possuem um verdadeiro império, aparentemente invisível, mas inundado de poder.
Uma pequena coleção desses desejos ''indisfarçadamente humanos'' é focalizada de maneira inquietante em ''Flor de Obsessão'', espetáculo da companhia paulista Pia Fraus apresentado no Filo 2004. Realizando um teatro sem palavras, constrói uma narrativa imagética onde atores, bonecos, música e iluminação se unificam com maestria.
Inspirado nos desejos que infestam - entre os dramas e tragédias - a obra do dramaturgo Nelson Rodrigues, ''Flor de Obsessão'' desenha um enorme vale de signos apresentados numa sucessão voraz. O trabalho do Pia Fraus convida o espectador à uma viagem repleta de subjetividade. A ingenuidade da manipulação de bonecos que permeia o senso comum é sumariamente colocada de lado, chutada como um animal incômodo. A obsessão torna-se um prato que se come quente.
A concepção do espetáculo é clara e ousada em eliminar a distinção entre manipulador (ator) e manipulado (boneco). Ambos contracenam com a mesma força de conteúdo. Rompem as barreiras da ilusão para atingirem uma relação de igualdade provocadora e uma intimidade altamente sexualizada.
Nesse contexto, é possível estender essa relação à condição das relações humanas: perceber como os desejos ocultos fazem com que o sujeito (manipulador) faça uso do objeto (manipulado) num grau de perversão revelador. Assim, ''Flor de Obsessão'', faz da metalinguagem estética uma ponte com os sentimentos guardados nos ''porões da psiquê''. Um espetáculo permeado pela fúria dos desejos que nunca podem ser controlados, e quando controlados, convertem fúria em tragédia.
Com uma linguagem própria e depurada, os artistas do Pia Fraus convidam o espectador para uma viagem particular por uma temática que geralmente é apresentada de maneira velada. A complexidade de signos sugeridos solicita da platéia uma entrega incondicional, com um dos pés fincados na realidade e outro na vastidão do inconsciente.

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