Os movimentos que o corpo é capaz de desenhar iguala-se aos grãos de areia do mar. Vastos a ponto de romperem com os limites de sua própria imagem. Uma situação onde torna-se difícil discernir se quem confere forma ao corpo é o olhar externo ou o pincel interno dos músculos e ossos.
''Aquilo De Que Somos Feitos'', espetáculo que a companhia de dança carioca Lia Rodrigues está apresentando no FILO 2004, deixa claro que a possibilidade de união (ou interação) entre o olhar externo e o pincel interno é um fato. Trabalhando num ponto de conexão entre a dança, artes plásticas e teatro, a montagem revela-se uma fascinante experiência estética.
A primeira parte da montagem pode ser vista como uma instalação inspirada na Body Art (vertente estética das artes plásticas que ganhou impulso no início da década de 70 onde o corpo do artista é convertido em meio e suporte). Também pode ser vista como a dança da construção de formas, onde a lentidão instaura um novo tempo rítmico para o conceito de movimento corporal - uma das característica da dança contemporânea.
Em ''Aquilo De Que Somos Feitos'', o corpo nu dos bailarinos e bailarinas convertem-se em esculturas vivas. Obras em lenta construção, em contínuo movimento de criação de formas. Desenhos que iludem as faculdades da visão. O corpo, em si, que a princípio apresenta-se familiar, transforma-se em composições que penetram no território do estranhamento e, ao mesmo tempo, da beleza.
O espetáculo mostra o corpo nu para depois cobri-lo. Não tanto de tecidos, mas de elementos sociais. Veste o corpo de fragmentos de referências que compõem o tecido social. Fibras que fazem com que as pessoas enfrentem adversidades no privado espaço do corpo e no coletivo espaço da multidão.
O conceito da companhia em eliminar do espaço reservado ao artista e do espaço reservado ao espectador, gerando um lugar único, coloca no chão as máscaras da obra de arte. Não há espaço para torres de marfins, apenas a possibilidade de um lugar onde a vida seja estética. O ato de desmascarar assumi a forma de revelação.
A sensação que ''Aquilo De Que Somos Feitos'' desperta é de que o corpo é uma espécie de casa. Quem sabe, uma ''casa de carne''. E tudo aquilo que acontece em seu interior pode ser visto através de suas janelas. Para isso, as cortinas precisam estar abertas e os vidros escancarados. Quem olhar com cuidado através da janela, poderá ver um vaso sobre a mesa com uma única flor. Se olhar com maior atenção, poderá ver um leve movimento das pétalas.

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