ARMAS CÊNICAS - A antropologia da memória
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de maio de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Espalhado pelo interior do Brasil existe um mar de histórias. Histórias inscritas nas vozes de milhares de pessoas. Histórias que tecem uma rica paisagem da cultura brasileira. Desconhecidas dos habitantes dos grandes centros urbanos, vagam discretamente à procura de ouvidos.
Foi nesse mar que o grupo paulista Lume pescou subsídios para compor o espetáculo ''Café Com Queijo'' apresentado no FILO 2004. Percorrendo regiões do interior do país, colheu maneiras narrativas e modos gestuais de pessoas comuns, imersas num cotidiano imediato. Um trabalho antropológico da memória cultural.
A montagem de ''Café Com Queijo'' está toda fundamentada no chamado trabalho de ator. Em vários momentos o espectador deixa de presenciar o ator interpretando para presenciar apenas o personagem interpretado. Os limites entre ambos é rompida em nome da ''mágica teatral''.
A estrutura do espetáculo coloca o espectador não como mero ouvinte, mas também como cúmplice, componente dessa ''mágica''. Solicita que ele também contribua com suas próprias narrativas, mostrando que todos os homens narram histórias nas conversas cotidianas. Narram, inclusive, e principalmente, suas próprias histórias, particulares e íntimas. Em outras palavras, a apoteose da memória.
Aquilo que a princípio parece ficção, ao final de ''Café Com Queijo'' revela-se realidade. Ao apresentar imagens das pessoas que serviram de referência para o trabalho, a montagem deixa claro que está reproduzindo uma realidade conferindo a ela um caráter estético. Converte realidade em arte para sugerir que invariavelmente existe arte na realidade, e para encontrá-la, bastam olhos abertos.
O interessante é que o espetáculo opta por não tratar de feridas, mas em sua superação através da sinceridade do humor. Mesmo quando focaliza feridas, escolhe abordá-las com leveza e bom humor. A vitalidade dos personagens reais que deram subsídios a ''Café Com Queijo'' não é desprezada pelos componentes do Lume.
Em algumas cenas a perfeição das partituras corporais e vocais chegam tão perto da exatidão que praticamente deixam a emoção num segundo plano. E, de repente, uma pequena dúvida aparece: há lugar reservado para a emoção no peito da perfeição?


