ARMADILHAS E BORDADOS
Zeca Corrêa Leite
Curitiba
De tudo que a vida armazena no transcorrer de sua história, o próprio tempo cuida para que os elementos se desfaçam. O que resta ao final da trajetória é um quase nada desaparecendo. Pensando nisso e no poema de Drummond, a artista plástica Anna Mariah Comodos batizou de Resíduo a exposição que abre hoje no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba, às 20 horas.
O mundo feminino ali está entre bordados de arames finíssimos, telas de náilon, pregos, fios elétricos e a ferrugem manchando de ouro e velhice aquilo que um dia foi de um branco impecável. São roupas de criança, vestidos de menina, um enorme casaco (ou capa), robe, espartilho.
Linguagens da sedução, pequenos detalhes denunciando armadilhas. Se não a sensualidade das dobras e das formas dos tecidos, então o abandono dos corpos invisíveis protegidos pelos invólucros. Mais explicitamente ali está uma ratoeira, à guisa de broche, como se aguardando a vinda da presa; uma corrente enfeitando outra veste dá a leitura dos sentimentos acorrentados.
Anna Mariah afirma que esta exposição não traz um sentimento de saudade. É uma lembrança, define. Comecei a fazer esculturas e aí me vieram lembranças das coisas, das roupas, da infância. Mas sem nenhuma nostalgia. Reunidas, as 20 peças objetos-instalações são como a arquitetura íntima da mulher.
A feminilidade evidencia-se despudorada, confessional. Sedução, alegria e sofrimento se entrelaçam dando o tom de furta-cor para visões mais analíticas. Existe isso: a trama, o bordado. Como diz o poeta, o bordado é a marca, como se fosse o sofrimento marcado, ou uma grande alegria. E eu fiz bordados depois de muita pesquisa com vários tipos de arames.
Cada trabalho traz o enredo de uma história. Como são tridimensionais eles se sustentam sozinhos e no conjunto fazem uma vida, uma passagem, explica Ana Mariah. Gosto muito de ver roupa pendurada vazia; me vem à cabeça quem esteve ali dentro, se a pessoa foi feliz. Roupa é uma coisa muito importante na vida da gente, embora no fundo seja bobagem é um pano, mas ele cobre o ser humano com sua beleza e suas ilusões.
Na vida adulta emergem os gritos contidos na infância da artista. Um vestido em que a gola é feita de pregos, revela esse incômodo por muito tempo guardado na caixa da memória. Ele representa as roupas que botavam na gente, como os organdis sufocantes que davam desconforto e tiravam a liberdade dos movimentos da menina dos seus 11, 12 anos. As lãs machucavam. A gente não gostava, mas tinha que ficar com aquilo; a educação daquele tempo era assim.
Já o grande e majestoso casaco a impor presença no salão é uma homenagem a Camille Claudel, embora sua sombra atravesse o tempo e vá parar lá nos primeiros anos de vida de Anna. Ainda muito nova, ela via no guarda-roupa dos pais um casaco imenso que pertencera a alguém muito ligado à família. Era uma peça rica, do começo do século, carregada de fascínio e medo.
Para a escultora ele está no limiar do mistério. Acho que ele é o abraço final de tudo o que se dilui na vida. Está na exposição para ser a última peça à qual o visitante irá se deter. Como num momento de partida, ele tem o dom de absorver chegadas e esperas, carregado de amorosidade. Parece estar esperando com os braços abertos, como os abraços de mãe. É o final de tudo, decreta Anna Mariah.
Resíduo, exposição de objetos-instalações de Anna Mariah Comodos. Abre hoje, às 20 horas, no Museu Metropolitano de Arte de Curitiba (Avenida República Argentina, 3.430, telefone 322-1525 ramal 2247). Permanece até 24 de outubro, de terça a sexta-feira das 13h às 20h30, sábados e domingos das 15h às 18h30.





