São Paulo, 02 (AE) - Numa cena decisiva de "Armadilha"
o personagem de Sean Connery entra no superbanco e surpreende-se ao ver que ali não há dinheiro algum. É um assaltante à moda antiga. Catherine Zeta-Jones representa a nova versão da assaltante high tech. Sabe que o grande capital hoje pode ser movimentado pela Internet sem que apareça uma só nota.
A cena é um dos orgulhos do diretor Jon Amiel. No Festival de Cannes, onde "Armadilha" passou fora de concurso, em homenagem ao astro Sean Connery, ele contou como a criou para assinalar as diferenças entre o par central. A diferença é de comportamento e também de geração. A cena não estava prevista no script original.
Amiel também contou com a maior naturalidade que não foi a primeira escolha do ator e produtor Connery para dirigir o filme. Numa entrevista à AGÊNCIA ESTADO no sofisticado Eden Roc, restaurante do Hotel du Cap, em Cap dAntibes, onde se hospedam os astros de Hollywood durante o festival, Connery já havia dito que o diretor original era Michael Bay, com quem fez "A Rocha". Despediu-o porque não via a história de "Armadilha" da mesma maneira que ele. Nos dois meses em que tratou da pré-produção, Bay visualizava o filme como um videoclipe. Era tudo o que Connery não queria.
Com Amiel, prevaleceu o que Connery chamou de "tratamento humano" dos personagens e das situações. Amiel desenvolveu mais a diferença de idade entre o ator e produtor e a bela Catherine. Imprimiu ao filme o conceito que definiu como: "Sexy sem ter uma cena de sexo, um filme de ação sem violência alguma." Em Cannes, Amiel estava particularmente satisfeito. Chamado a salvar um projeto que cambaleava, fez um filme que começava a ir muito bem nas bilheterias dos Estados Unidos.
Tanto Connery quanto Amiel fizeram questão de revelar qual foi o modelo que tinham em mente ao fazer "Armadilha". Sonhavam com um "Ladrão de Casaca" para os anos 90, atualizando o clássico de Alfred Hitchcock. O novo filme não tem nada a ver com o modelo que lhe deu origem. Hitchcock possuía, como poucos, o segredo de fazer um thriller com suspense e humor. Caprichou em "Ladrão de Casaca", que ostenta muitos símbolos sexuais, desde a gema do ovo que Jessie Royce-Landis, que faz a mãe de Grace Kelly, perfura com o cigarro, até os fogos de artifício no beijo de Grace e Cary Grant, representando o tão desejado orgasmo na relação sexual que fica subentendida entre os dois.
Foi idéia de Connery que seu personagem resistisse às investidas de Catherine. "Não sou mais um garoto", ele diz, mesmo consciente de que permanece um símbolo sexual. Foi escolhido por mulheres americanas de 25 a 40 anos como o homem que elas gostariam de levar para a cama.
Connery acha que seu background como James Bond predispõe o público a aceitá-lo em "Armadilha". Só se irrita com o repórter quando ele lhe pergunta por que, sendo produtor, perde tempo com filmecos como este, não repetindo a preocupação social de obras como "Ver-te-ei no Inferno", de Martin Ritt. Ele pode ser um astro, mas, só para ficar na comparação com "Ladrão de Casaca", não se comporta como Cary Grant. O outro, um príncipe da elegância, jamais enfiaria o dedo na boca para retirar um resto de alimento entre os dentes durante a entrevista.

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