Ao desmascarar um outro Dom Quixote, que mora além da obra imortal de Cervantes, o premiado dramaturgo argentino Aristides Vargas marca o rosto desse novo personagem que surge no espetáculo ''La Razón Blindada'', com as características de autor e diretor e sua poesia cruel, inspirada pelas suas memórias.
Nascido em Córdoba, na Argentina, Vargas também protagonizou vários filmes, sendo diretor de grupos latinos-americanos importantes, entre os quais a Companhia Nacional de Teatro, o Justo Rufino Garay, da Nicarágua, o Taller del Sótano, do México e a Companhia Ire, de Porto Rico, fundando também um dos mais prestigiadas companhias equatorianas da atualidade, o Malayerba.
Durante entrevista coletiva no FILO, a simpatia dispensada pelo diretor não invejou da modéstia ao falar da própria obra. Numa panorânica rápida pelo próprio trabalho e a arte teatral, Vargas põe em evidência principalmente o exercício sobre o ser humano.
Ao ser questinado sobre a profusão de sua obra, o dramaturgo sorri ao dizer que isso é praticamente um mito. ''Todo mundo pensa que eu escrevo muito. Tenho umas 15 peças de teatro. Escrevo em média um texto por ano e sempre sobre um universo opressivo, de angústia, onde passei a metade da minha vida nos anos 70. Sou um reinicidente nesse contexto, um exemplo disso é texto 'Nossa Senhora das Nuvens', uma obra sobre o exílio'', comentou Vargas.
O diretor contempla a diversidade do teatro latino-americano, situando-se numa vertente que pretende reconstruir uma perspectiva ética subjetiva.
''Os nossos personagens não têm um sentido de pertencer, moram em um território indefinido, não estão presos ao idioma, o que não poderia ser de outra maneira'', completou.
Colocando o Malayerba do lado de lá do muro, onde a palavra provoca o sentido, Vargas diz que a palavra ''revolução'', que na sua juventude era considerada importante, atualmente é satanizada numa época em que as pessoas se consideram mais livres, vivendo numa sociedade pós-moderna e mais perigosa, com surtos de violência e pestes. ''Vivemos numa sociedade onde não podemos viver, amar. É uma sociedade louca, medieval. Você não pode dissociar isso. Não se pode fazer nada por decisão. Não se pode ser feliz por decisão'', afirmou ao passar o crivo nessa sociedade.
Os dramas da América Latina merecem ser contados pelo dramaturgo, mas a partir de histórias pequenas. Vargas lamenta a falta de trânsito cultural entre os países latinos, lembrando que em Brasília existe um projeto de fazer uma edição bilingue de quatro textos, uma pequena iniciativa na falta de intercâmbio. ''Os idiomas são barreiras, mas os governos fazem uma barreira maior, mantendo-se em sua cultura. Ao invés de invasões econômicas ou de guerras seria interessante uma invasão cultural'', concluiu.

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