São Paulo, 28 (AE) - A decisão do diretor Michael Hoffman, de rodar sua versão de "Sonho de uma Noite de Verão" na Toscana do fim do século passado, acabou provocando um problema monumental para o próprio Hoffman: que tipo de música ele deveria usar? Clichês como a elizabetana "Hey Nonny Nonny"
pensou Hoffman, estavam fora de cogitação. Decidido a fugir deles, consultou um expert para saber o que as pessoas ouviam na Toscana daquela época. Ao contrário de Roma e Nápoles, o cancioneiro popular toscano era pobre. As pessoas ouviam mesmo ópera.
Assim, parte da trilha é composta de árias de óperas como "La Traviata" (Brindisi), "La Bohme" (Che Gelida Manina), "Norma" (Casta Diva) e "LElisir dAmore" (Una Furtiva Lagrima). Estava resolvida a parte da música dos humanos. Mas, qual seria a música das fadas e dos elfos? Quais seriam os temas adequados para acompanhar as travessuras de Puck no reino encantado de Oberon? As peças da música incidental composta por Mendelssohn? Sem dúvida. Hoffman ficou feliz com a lembrança, mas ainda faltava algo nesse reino, a atmosfera mágica de Shakespeare.
Foi nesse estágio que o nome do compositor e maestro Simon Boswell surgiu. Uma vez que o diretor havia imaginado o reino de Oberon como um mundo cheio de romance e inteligência, sofisticação e simplicidade, sensibilidade e humor, Boswell era a pessoa indicada para a tarefa. Era o único capaz de promover um cruzamento entre Mozart e música síria sem que esse resultasse ofensivo. Tinha tudo para ser kitsch, mas, ao contrário, Boswell escreveu uma trilha realmente original.
É claro que Boswell perde em fama para outros nomes que aparecem na trilha como convidados. Os solistas vocais atendem por nomes como Pavarotti, Roberto Alagna, Cecilia Bartoli, Renée Fleming (cantando Casta Diva) e Marcelo Giordani. Só esses astros e estrelas do mundo lírico já justificariam a existência do disco. Além deles, os regentes e as orquestras que aparecem nos créditos pertencem ao mesmo Olimpo. Ashkenázy rege a música incidental de Mendelssohn, Karajan conduz Puccini (La Bohme) e Riccardo Chailly fica com Rossini (La Cenerentola). O lugar de Boswell, contudo, está preservado na trilha.
A exemplo da abertura de Mendelssohn para "Sonho de uma Noite de Verão", ele também usa instrumentos de sopro para anunciar o reino de Oberon e violinos para definir a entrada dos elfos e das fadas, acrescentando vocais produzidos por David Frost. Pode ser que o filme de Hoffman não agrade, mas certamente não se poderá dizer o mesmo de sua música e do neoclássico Boswell.

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