Arautos do pop etéreo
Nelson Sato
De Londrina
Qualquer lista de melhores álbuns da década de 80 ficaria manca sem a presença de Treasure, do Cocteau Twins.
Treasure é ainda o grande disco do grupo escocês, aquele que estabeleceu a sonoridade etérea como sinônimo de uma suposta exigência no pop. Agora, quase quinze anos depois de seu lançamento no Brasil, o álbum retorna às lojas pela gravadora Roadrunner integrando um generoso pacote de 9 CDs.
O Cocteau foi contemplado com seis: o já citado e mais Garlands (1982), Tiny Dynamine / Echoes in a Shallow Bay (1985), Victorialand (1986), Blue Bell Know (1988) e Heaven or Las Vegas (1990). O restante da fornada inclui os álbuns Ill End in Tears, Filigree & Shadow e Blood estes do This Mortal Coil, um projeto que reuniu músicos de bandas vinculadas ao minúsculo selo britânico 4AD entre os quais o próprio Cocteau, Wolfgang Press e o Dead Can Dance.
É o caso de perguntar se os timbres atmosféricos e as texturas oníricas, presentes em todos esses trabalhos, ainda repercutem por aqui. Há quem postule o triunfo da diluição do estilo, embaralhado que foi às correntes new age no que este rótulo tem de mais aborrecedor. Mas há os que cultuam a tendência atribuindo-lhe um status similar ao conferido à música erudita e às vertentes mais modernas do jazz.
Da linhagem, o Cocteau Twins foi um dos raros grupos a obter algum êxito comercial. Seus trabalhos mais recentes são mais acessíveis, mas nem por isso banais. A voz lírica de Elizabeth Frazer continua envolvendo as canções ao ponto da hipnose, acompanhada pelas guitarras delicadas de Robin Guthrie e coadjuvada pelo baixo de Simon Raymonde (ele substituiu Will Heggie depois do segundo disco).
As letras compostas por Frazer levam, geralmente dela mesma, a definição de jogo de ruídos mesclando palavras com um vocabulário particular onde a sonoridade se sobrepõe aos significados. Diz a lenda que, por volta de 1985, a canção Lorelei arrancava suspiros e gritos coletivos entre os frequentadores da célebre casa noturna paulistana Madame Satã, que a incluía na discotecagem.
Dois anos depois, o álbum que trazia a faixa seria lançado pela RCA em resposta à maciça execução da canção nas rádios-rock então emergentes, que atendia a pedidos do tipo não sei o nome, mas é aquela música...assim...assim...assim...que toca lá toda noite. O disco era Treasure, o dimante mais precioso do pacote que chega agora ao público brasileiro.





