'Aqui vem de bandido a doutor', garante seo Zé
Entrevistar seo Zé exige a cautela de um papo com Darth Vader: a figura impõe respeito e nunca se sabe o que virá. Para alívio do repórter, porém, a conversa foi toda agradável e gentil. Logo quando soube que o tema do falatório seria o aniversário de seu bar, abriu-se em orgulhosas redondilhas: ''É a matéria na cidade/ Que está aparecendo/ Você, como jornalista/ Já está se apercebendo''. Assombra a vivacidade do homem que, aos 77 anos, mantém o mesmo bar desde a década de 1950, sem luxo nem glória.
Como surgiu a idéia de fundar a Adega União?
Eu gosto de beber. Tomo diariamente meus cinco ou seis copos de vinho mais minhas quatro ou cinco garrafas de cerveja. Saí da Paraíba de navio, com 20 anos. No primeiro porto que parei, em Recife, já estava bêbado. Fiquei alguns anos no Rio, trabalhando como taxista. Daí, em 1958, passando férias em Londrina, eu e meu irmão tivemos a idéia de abrir uma adega.
Qual a diferença da Adega da década de 1950 para a de hoje?
Antigamente havia menos concorrência. Nunca ganhei muito dinheiro, mas a situação antes era mais tranquila. Hoje em dia, se der pra pagar as contas e beber, já tá bom.
E a questão da falta de segurança? Não aumentou?
Eu me sinto seguro. Não tenho problema com bandido, sabe por quê? Porque não cagueto ninguém, não chamo a polícia. Cada um tem que ser sua própria polícia, se for depender dessa que tá aí...
Mas nunca houve casos de violência no bar?
De vez em quando tem coisas, mas do lado de fora... Me chamaram para depor, eu disse que não vi nada. Ficaram bravos comigo, mas eu vou falar o quê? Outra vez, entrou um bêbado aqui, apontando um revólver pra todo mundo. Eu era novo na época, desarmei ele, não tenho medo, revólver pra mim é brincadeira. O coitado se estatelou no chão. Quando ele acordou, perguntei por que ele tinha feito aquilo. Devolvi o revólver sem as balas e começamos a beber juntos.
O estilo dos frequentadores da Adega mudou ao longo dos anos?
Aqui vem de bandido a doutor, e eu respeito todo mundo. Pra você manter um estabelecimento por tanto tempo tem que ter um certo gabarito, saber lidar com as coisas. Com tudo que aconteceu aqui dava pra escrever um livro... Eu não cagueto ninguém, tenho minha própria justiça, vou levando... E estou forte, quero viver cem anos. Beber um pouco ajuda, deixa a pessoa animada, disposta.
Qual o seu maior orgulho à frente da Adega União?
Eu só estudei o primário, mas com a Adega consegui formar todos os meus filhos. Meu orgulho é trabalhar e beber, porque eu gosto de beber. Mas agora, depois de cinquenta anos, já tá na hora de parar. Acho que vou pra chácara pescar lambari.





