AQUI SE FAZ, AQUI SE TOCA
Todo objeto pode ser transformado em um instrumento musical. A afirmação poderia ser identificada imediatamente com a imagem de Hermesto Pascoal. Mas não, a frase é do músico mineiro José Carlos Ferreira da Silva, mais conhecido como Carlinhos Ferreira.
Ele está ministrando um dos seis cursos que estão sendo oferecidos pela primeira vez no Festival de Música de Londrina (FML). A Oficina de Construção de Instrumentos de Percussão e Iniciação à Percussão, iniciada na última terça, conta com 51 inscritos, o que levou Ferreira a separar os alunos em duas turmas. Tivemos quase 100% a mais de alunos que pretendíamos, observa o músico, já que em princípio foram oferecidas 30 vagas.
A idéia de criar esta oficina, segundo o percussionista, é de preencher uma lacuna no meio musical: Muitos músicos sentem falta de uma variação maior de instrumentos, uma necessidade, pois nem tudo tem no mercado. Ferreira, que é músico há 15 anos, ministra oficinas em festivais há 13. Ele acha que o principal objetivo do curso é despertar o aluno para as potencialidades de cada objeto. Tudo depende de como a pessoa vê o objeto, reafirmando sua idéia que todo objeto é um instrumento musical.
Ferreira pretende trabalhar a iniciação percussiva em etapas que vão da teoria musical à construção e apresentação de uma peça rítmica no final da oficina, que deve seguir um tom informal, apenas para os estudantes que participam do FML. Ele deve passar pela experimentação prática com variados instrumentos de percussão, desde tambores improvisados até cabaças reestruturadas. Na construção de instrumentos percussivos, devem ser confeccionados instrumentos como caixa de folia, xequerê, reco-reco, batá, ilu-batá, caxixi, marimba, chinelofone, calimba, tambor falante, berimbau, pandeirão, paiás, pau de chuva entre outros.
Seriam estes instrumentos populares? Ferreira acredita que todos já são íntimos dos músicos. O que falta descobrir são as suas utilidades. Não que seja possível criar instrumentos novos em uma oficina, mas é bem possível criar formatos novos, pondera. O músico lembra que a palavra percussão vem de percutir, que significa bater. Para ele, nenhum som é feio, pois afinal de contas, na vida, no dia-a-dia, tudo é música. O som do trânsito, a construção que se prolonga, o ônibus que locomove, as pessoas que conversam, o trem que foge dos trilhos. Tudo faz parte de um caos sinfônico que podemos chamar de realidade. A diferença, segundo Carlinhos, é de que na realidade os sons são desorganziados, e na música, eles seguem determinada ordem imposta pelo autor.
A oficina fez Ferreira trabalhar desde o começo da semana. Na segunda-feira, ele esteve em um ferro-velho da cidade e aproveitou para trazer vários objetos com utilidades musicais ocultas. O ferro-velho é um verdadeiro shopping center para os músicos sentencia, lembrando que encontrou em uma só viagem rodas, latas, cabaça.
Entre as suas referências, Carlinhos aponta dois mestres da música instrumental brasileira Hermeto Paschoal (o mestre de todos) e Naná Vasconcellos (que esteve recentemente em Londrina durante o Festival Internacional de Londrina). Lembra também dois professores fundamentais em sua formação Djalma Correia e Caçapava.





