Arquivo FolhaNando Reis: ‘‘Dar esse tempo na carreira-solo não dá um gostinho de quero mais, porque o tempo ensinou-me a ser mais calmo’’ O compositor Nando Reis está de volta ao lar. Depois de um período de recesso dedicado à carreira-solo, que rendeu seu primeiro disco - 12 de Janeiro (Warner) -, ele reassumiu este ano o posto de baixista dos Titãs. Traz com ele o reconhecimento da crítica por seu trabalho como compositor nos dois últimos anos. Ganhou prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e da MTV, mas acha cedo considerar suas músicas definitivas. ‘‘Meu trabalho ainda é incipiente comparado, por exemplo, ao dos Titãs’’- analisa.
Ao retornar ao convívio com os velhos amigos, Nando Reis deixa para trás uma das fases mais férteis de sua carreira. Nesse período, compôs para Cássia Eller, Cidade Negra, Skank, Maria Bethânia e, principalmente, Marisa Monte, parceira de trabalho com quem mais se identificou. Tanto que bastaram poucos meses para o trabalho dar lugar ao namoro. Mas isso foi em 1995. ‘‘Não falo com a Marisa há cerca de um ano’’- revela.
Agora, o músico paulistano dedica-se apenas à família (a mulher Vânia e os três filhos) e aos projetos com os Titãs para este ano, que incluem dois discos e um vídeo que mostrará, entre outras curiosidades, um encontro da banda com Renato Russo. Em entrevista à Agência Estado, Nando Reis conta como foi a experiência do primeiro disco-solo e fala de crítica, de seus medos e da crise que os Titãs viveram no ano passado.
Faça um balanço da sua carreira-solo.
Nando Reis - Em 1995, os Titãs planejaram uma parada de nove meses e eu lancei meu primeiro disco-solo, ‘‘12 de Janeiro’’. Nessa época, algumas pessoas haviam gravado músicas minhas, principalmente a Marisa Monte, com ‘‘Diariamente’’, o Cidade Negra, com ‘‘Onde Você Mora’’, e a Cássia Eller, com ‘‘ECT’’. Em 1996, a grande surpresa foi a música que eu fiz com o Skank - ‘‘Uma Partida de Futebol’’ -, uma parceria completamente diferente. As pessoas olhavam para o meu trabalho como se ele estivesse voltado só para a MPB, o que não é bem verdade, nem no meu trabalho nem com as pessoas com as quais eu me relaciono para compor. A trajetória do disco ficou um pouco aquém das minhas expectativas, pois é claro que eu queria que tivesse sido mais executado e vendido mais. Mas eu fiquei satisfeito com ele por ter cumprido sua função como primeiro disco.
Seu álbum foi bem recebido pela crítica. Como reage às opiniões sobre seu trabalho?
Nando Reis - Realmente, eu fui citado em algumas listas de fim de ano, ganhei prêmios da APCA e da MTV. Acredito que minha carreira conseguiu ser vitoriosa nos lugares onde o disco foi avaliado, comparado. A crítica, às vezes, é boa na medida em que as pessoas apontam aspectos do seu trabalho que você ainda não tinha visto. Às vezes, uma crítica agressiva, pessoal, dá raiva. Por isso, eu tenho uma relação quase sarcástica com esse tipo de coisa, porque não me diz nada.
Como se dá seu processo de criação? Existe algum ambiente que você considera ideal para compor?
Nando Reis - Em geral, eu componho quando estou viajando com os Titãs, em hotéis. Eu gosto de ficar no quarto sozinho, com meu violão. Antes, o meu processo de criação era meio sem controle. Eu chegava e ia fazendo o que viesse à cabeça. Atualmente, eu tenho uma disciplina, uma obrigação. Obrigação não, porque eu tenho um grande prazer nisso, eu gosto, é uma necessidade. Eu queria escrever uma média de uma música por mês. Parece pouco, mas as músicas dão trabalho, não há nenhuma regularidade. São exceções as músicas que saem muito rápido.
Sua parceria com a Marisa Monte foi uma das suas fases de maior fertilidade musical. Não pensa em reeditar a dupla?
Nando Reis - Eu não falo com a Marisa há muitos meses, talvez um ano. Ela esteve, e está, muito ocupada, viajando muito. Não sei, eu espero voltar a trabalhar com ela, pois tenho um grande orgulho das músicas que fizemos juntos. Era muito legal nessa época, pois estávamos muito juntos por causa do nosso namoro. Então, nós usávamos muito o nosso tempo para trabalhar, que era uma coisa que a gente gostava de fazer. Depois disso, nunca mais trabalhamos juntos. Eu acho que foi importante para mim e para ela. Quer dizer, foi para mim, para ela, não sei.
Você tem algum temor quanto à sua carreira?
Nando Reis - Ao mesmo tempo em que tenho uma segurança com as coisas que eu faço, às vezes, pergunto-me se eu vou conseguir continuar a fazer novas canções. Por isso, eu temo principalmente não conseguir fazer uma boa música. Há pouco tempo, fiquei uns três meses sem fazer nada e me deu um enorme desespero. Isso é uma coisa meio paradoxal, pois ao mesmo tempo em que você desenvolve seu estilo, sofistica sua linguagem, avança e procura o caminho para a renovação, essa linguagem pode esgotar-se. É um movimento contraditório. Então, a sensação que você tem quando faz uma música é a de que conseguiu visitar o próximo quarto de um infinito corredor. Se você não faz a música, há um medo de que não consiga sair do quarto em que está.
Como foi a experiência de trabalhar em parceria com Roberto Frejat, do Barão Vermelho.
Nando Reis - Eu fiz duas músicas com o Frejat - ‘‘Presente Ordinário’’, que ofereci para a Cássia Eller, e outra ainda sem nome - numa situação que eu nunca tinha experimentado. Foi algo tipo: ‘‘Vamos sentar e fazer uma música?’’ O nosso primeiro encontro foi o máximo, ficamos umas dez horas sentados trabalhando e chegamos a um termo final. Depois, gravamos uma demo, eu ouvi a música e fiquei muito satisfeito. No segundo encontro, houve uma apreensão, pois a gente achava que aquele primeiro foi obra do acaso, fortuito. É complicado trabalhar com outros parceiros, pois exige cuidado, um grau diferente de generosidade e crítica. As pessoas têm uma idéia de que o Frejat não faz letras, porque ele era o parceiro do Cazuza. Acham que ele só pegava as letras do Cazuza e tocava, o que não é verdade. Embora, de alguma maneira, eu sempre tivesse dado início aos versos, ele é bastante rigoroso em apontar o que não concorda e sugere alguns versos.
Depois da experiência com a carreira-solo, você agora está de volta aos Titãs. Não dá uma sensação de perda de continuidade?
Nando Reis - Eu adoro o trabalho com os Titãs, principalmente neste ano, quando o grupo completa 15 anos. Eu acho que a banda serve, para mim, como uma proteção, uma maior ocupação. Essa divisão do meu trabalho é muito boa, porque me dá mais calma para peneirar e escolher melhor minhas músicas. Eu não sou um compositor tão fértil como o Brown ou o Chico César. Dar esse tempo na carreira-solo não dá esse gostinho de quero mais, porque o tempo ensinou-me a ser mais calmo, a dosar o trabalho. Além disso, minha carreira é incipiente comparada com a dos Titãs. Eu tenho um disco gravado - que vendeu 30 mil cópias -, uma boa reputação como compositor, fiz só uns 15 shows e, por isso, ainda não tenho um nome consolidado como artista. Os Titãs vendem 250 mil discos e fazem 250 shows, são dez vezes maiores que eu. E eu gosto disso. Mas espero poder equilibrar e conciliar as duas coisas.
Em 1995, você disse que essa história de discos paralelos estavam ameaçando os Titãs. Como foi isso?
Nando Reis - Isso realmente ocorreu e tornou difícil a nossa volta para gravar o novo disco, Domingo. Havia uma dúvida muito grande se nós íamos voltar a trabalhar juntos e se o investimento das gravadoras nos discos-solos seria proporcional. Houve um medo que eu compreendo, porque sentiria o mesmo no lugar deles. Isso conturbou um pouco a gravação de Domingo. Havia uma certa guerra interna, mas não aquela guerra sadia que nós tínhamos em alguns momentos e temos agora. Mas nós soubemos suportar essa dificuldade, essa raiva uns dos outros, e voltamos a fazer shows. E foi isso que nos apaziguou, porque nós temos um repertório e um público muito grandes, o que nos fez reconhecer a dimensão dos Titãs. Nós não sabíamos como lidar com aqueles problemas e tivemos de aprender errando e acertando.
Falando de Titãs, o que vem por aí?
Nando Reis - Este ano, o grupo faz 15 anos da realização do primeiro show, em 1982, no Sesc Pompéia, em São Paulo. Vamos comemorar com um disco acústico, o que a gravadora já vinha querendo fazer havia uns dois ou três anos, mas achávamos que não era a hora certa. O disco será gravado em um show no Rio de Janeiro e esperamos também trazê-lo para São Paulo. A gravação terá material antigo e quatro músicas inéditas, com produção do Liminha e alguns convidados, como Maria Bethânia - que só vai gravar em estúdio -, Jimmy Cliff e, provavelmente, Erasmo Carlos e Rita Lee. No segundo semestre, quase no fim do ano, vamos lançar outro disco que reunirá uma série de curiosidades, desde músicas retiradas de fitas demo antigas do grupo até coisas caseiras, marchas de carnaval e composições que ficaram de fora dos outros discos. Esse trabalho vai revelar uma faceta dos Titãs que pouca gente conhece: a do humor. Um humor, digamos, quase igual aos Mamonas Assassinas. Talvez isso mude a idéia errada que algumas pessoas fazem do grupo, de que só fala mal das instituições, com raiva. Também queremos fazer um show no Sesc Pompéia com o repertório antigo e lançar um vídeo com uma seleção de imagens colhidas em viagens e ensaios. Mostraremos encontros inesquecíveis, como o que tivemos com Renato Russo.

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