Aquém da verossimilhança
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Mariana Trigo <br> TV Press 
Quase todas as personagens femininas de ''Fina Estampa'' parecem distantes da realidade. Em uma análise mais cuidadosa das tramas de Aguinaldo Silva, fica claro que o autor assumidamente escreve tramas sobre ''o eterno feminino'' para serem protagonizadas por mulheres fortes e batalhadoras - como a Maria do Carmo, de ''Senhora do Destino'' - e vilãs absolutamente insanas - como a Nazaré de ''Senhora do Destino'' ou a Adma de Cássia Kiss Magro, em ''Porto dos Milagres''. Mas agora, em ''Fina Estampa'', é possível perceber que diversas personagens se distanciam de um tom verossimilhante.
Griselda, por exemplo, é brilhantemente interpretada por Lília Cabral, mas a personagem, independentemente de sua intérprete, é difícil de levar a sério pelo figurino exageradamente masculino e trejeitos de ogro. Em contrapartida, a vilã Tereza Cristina, de Christiane Torloni, também peca pelo excesso em sucessivos ataques de histeria. Por mais peruas que as ricaças emergentes da Barra da Tijuca sejam representadas na história, é duro acreditar em uma personagem tão exagerada, quase sempre muitos tons acima. No entanto, esse extremo também provoca uma antipatia proposital à personagem.
Dessa forma, o distanciamento do que parece crível se estende por diversos núcleos. Apesar da atuação convincente de grande parte do elenco feminino, algumas personagens parecem sair de contos de fadas. Por exemplo, a desprotegida e mimada Patrícia, de Adriana Birolli, e a Letícia, de Tânia Khallil. Basta observar o comportamento resguardado e tímido da professora universitária viúva e atrapalhada para identificar os arquétipos demasiadamente evidentes na trama. A personagem de Tânia parece que vai, a qualquer momento, perder os sapatinhos de cristal em uma escadaria do cenário. Em contrapartida, a simpática Totia Meirelles parece ter saído do movimento hippie da peça ''Hair''. A sua sempre ''zen'' Zambeze só falta circular pelo quiosque onde grava, na praia do Jardim Oceânico, com incensos nas mãos.
Na verdade, o que se observa, é um exagero de tonalidades fortes que pincelam determinadas personagens da história, que se estabiliza com uma média satisfatória de 40 pontos. A boa audiência é mérito do autor e do diretor Wolf Maya, que escolheu uma temática atraente em cenários solares, como o Jardim Oceânico, região do início da Barra. Nesta entrada da primavera e com a proximidade de dias mais ensolarados, ''stock-shots'' de kitesurfes multicoloridos ao vento, gente sarada pelas praias e um clima permanente de férias, que sugere o bairro, parecem seduzir o público com mais facilidade. Principalmente após os tensos momentos da reta final da antecessora ''Insensato Coração'', com sequências de sequestros, tiroteios e vilanias mais atrozes.


