Com a simplicidade e generosidade das pessoas comuns que já viram muitas coisas no decorrer da própria história, a comerciante Maria Ionice Ribeiro, a Xuxa, de 60 anos, tem opinião própria e uma visão muito particular do novo espaço cultural que durante 50 anos foi uma cadeia.
Há mais de 20 anos à frente do "Bar da Xuxa", localizado diante da entrada principal da 10ª Subdivisão Policial (ao lado do antigo "Cadeião"), ela acabou sendo testemunha ocular de muitas tragédias.
Da parte de dentro do balcão do bar, onde na parede ao fundo se vê uma estampa de Nossa Senhora de Fátima, uma placa de metal com o nome do bar e um grande quadro sobre as benfeitorias que o Major Pimpão fez em prol de Londrina durante a sua rápida passagem como prefeito (em 1943), dado por um amigo advogado, ela abre o jogo e remexe em suas memórias: "‘Fia’, vou te falar uma coisa. Isso aqui, para mim, era muito melhor quando a cadeia funcionava. O meu bar vivia cheio e atendia até de madrugada", conta.
Com a desativação da cadeia e transferência dos presos, a partir de 1990, gradativamente os negócios começaram a ir mal e hoje ela fecha as portas antes do anoitecer com medo dos "maloqueiros". "Antes não era assim não. O pessoal errado tinha medo de passar por aqui", recorda.
Acostumada a receber os funcionários da cadeia e familiares de presos em seu bar, na sua visão os problemas que aconteceram no Cadeião foram provocados pelos próprios presos. "Uma vez eles até colocaram fogo nos colchões. Era feio o negócio, mas não acredito que os policiais faziam maldades", assegura.
Pela proximidade com os funcionários, ela tinha a liberdade de "matar a curiosidade" quando algo mais grave acontecia. "Cheguei a ver um preso que se matou enforcado na cozinha e essa cena não me sai da cabeça", pontua, acrescentando que até mesmo no Instituto Médico Legal chegou a ter trânsito livre para ver como é a "cor da carne humana".
Ainda sem ter coragem de colocar os pés além do hall de entrada do novo Cadeião, ela admite que o lugar ficou bonito, mas que não consegue dar conta das suas lembranças. A última vez que entrou lá foi em 2002, para assistir à peça "Apocalipse 1,11", do grupo Teatro da Vertigem (São Paulo), durante o Festival Internacional de Teatro (Filo). E ficou chocada com as cenas de sexo explícito e repressão policial, já que a montagem fazia referência aos 111 mortos do Carandiru, ocorrido em 1992.
"Aquele lugar (Cadeião) é assombrado. Tem muita gente ali que morreu antes da hora e acredito que o espírito fica vagando por lá", sentencia. Ela mesma diz ter visto "uma pessoa de branco" quando, durante a reforma, foi lá dar uma "espiada" no que estava acontecendo. "O pessoal que trabalhava lá também diz que viu ou sentiu muita coisa, não sei não...", comenta, ressabiada. (A.P.N.)

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