Dez, quinze, vinte anos? Alguém de boa memória que faça as contas, mas o fato é que há muito um dos homens mais importantes da cultura brasileira não vinha a Londrina. Tempo demais para uma cidade que costuma gabar-se de receber celebridades atuantes nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Antes tarde do que nunca, com o perdão do clichê, Gilberto Gil retorna à cidade para ser reverenciado num dos shows mais aguardados da temporada. O cantor, compositor e para muitos e muitos poetas é quem deve ganhar visibilidade maior no megaevento. Questão de direito adquirido, já que em quase 40 anos de trajetória artística Gil formou e informou opiniões através de suas letras e músicas.
Gil vem com show calcado no mais recente disco ''Kaya N'Gan Daya'', em presta faz tributo a Bob Marley. Treze faixas do álbum serão intercaladas com outros sucessos como ''Vamos Fugir'', ''Extra'', ''Barracos'' e ''Esperando na Janela''. Uma grande banda vem dar-lhe suporte Arthur Maia (baixo), Carlos Malta (sax e flauta), Cláudio Andrade (teclado), Gustavo di Dalva & Leonardo Reis (percussão), Jorginho Gomes (bateria), Sérgio Chiavazzoli (guitarra), Cícero Assis (acordeon) e Nara Gil, Juju Gomes & Ângela Lopo (vocais).
A obra de Gilberto Passos Gil Moreira, baiano de Salvador, nascido em 26 de junho de 1942, abarca todos os estilos do rock ao baião, o reggae ao samba, do funk aos ritmos baianos. No Brasil, é uma referência a Tropicália lhe deu regua e compasso. No exterior, uma personalidade ele detém um Grammy na categoria World Music (conquistadoi em 1998), a condecoração ''Cavaleiro de Artes e Letras'', conferido pelo ministro francês Jack Lang, sem contar na admiração conquistada por grandes do exterior como Stevie Wonder e Jimmy Cliff.
Gil já inscreveu com louvor seu nome na históra da música Brasileira. Mais que um grande nome, uma venerável grife.
Foi muita coincidência ou foi proposital você fazer um disco homenageando o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, e na sequência o Rei do Reggae, Bob Marley?
Foi uma feliz coincidência, não foi foi premeditado.
Mas o disco-tributo estava sendo aventado há muito tempo e só agora saiu, né?
É que foram surgindo outras tantas coisas. Fiz o ''Quanta'',o ''Quanta Gente Veio Ver'', o projeto com o Milton Nascimento, as canções de ''Eu Tu Ele'' em que cantei Luiz Gonzaga...Foram surgindo. Até que tive espaço, sossego e tempo para fazer esse trabalho com o Bob Marley.
O Marley sempre foi uma referência musical para você. Em que ele te pega?
Basicamente a composição, o canto e os elementos especiais que ele trouxe com sua banda, The Wailors. Ou seja, o modo de tocar o baixo e a bateria. Enfim, pelo reggae mesmo que ele ajudou a criar. Bob Marley é uma espécie de João Gilberto do reggae.
Nesse disco você acrescentou vários elementos musicais brasileiros: um baiãozinho, um triangulinho acolá, um samba lá. Foi uma maneira de trazer o Brasil um pouco para o universo do reggae?
Na verdade foi contigencial por causa dos músicos que tocam comigo. Eu estava vindo de um trabalho com o baião, com as canções de Gonzaga, e estava com esses meninos, com esses músicos disponíveis. Além disso, estava com o sentimento da coisa nordestino muito fresca ainda. E havia também as ligações atribuídas ao reggae e ao xote, a semelhança entre os dois estilos. Esses elementos todos acabaram definindo essa presença dos elementos nordestinos no trabalho.
É como se você quisesse fazer uma ponte musical entre nordeste-Jamaica?
Pois é, mas esse ponte ainda não foi construída. Ela é intuita, virtual
No disco há presença de Rita Marley. Não deu para gravar com The Wailors? Parece que há uma questão de disputa do espólio do Bob Marley...
É... É uma questão de cumplicidade com a família Marley porque estão em luta e acabou ficando complicado a participação dos músicos. Eles não puderam gravar na Jamaica porque eu estava gravando nos estúdios da família Marley... E também não tinham tempo para gravar no Brasil, enfim, não deu.
Você tem algum projeto dentro dessa linha de discos-tributos?
Eu quero fazer um tributo ao samba. Não necessáriamente a um determinado compositor, mas ao samba de maneira geral, que iria abranger várias épocas, vários estilos, vários tipos de samba. Mas não sei ainda quando irá acontecer.
Não menosprezando Frejat, mas há um grande interesse em ver e rever Gilberto Gil em Londrina. Como você lida com essa questão de fãs?
Olha, eu tenho que lhe dizer que estou acostumado a lidar com isso. Nos quase 40 anos de carreira passei por vários e grandes círculos de aproximações. Agora passo por mais um círculo porque o reggae me aproxima de uma juventude que não era agregada ao meu universo. Quando gravei ''Eu Quero um Xodó'' ou ''No Woman no Cry'' foi assim. Acho que venho ampliando público cada vez mais porque aos velhos seguidores vão se agregando os novos. A cada década sempre passou gente para apreciar a música de Gil. Tornaram-se fãs, né?
O Bob Marley tem um reconhecimento artístico inegável. Havia também ligada a ele, dentro de um contexto cultural, a questão das drogas, da maconha especificamente. Como você atualmente se encaixa nesse universo?
Sempre achei que a legalização é o caminho mais interessannte para acabar com o tráfico. O tráfico é que gera toda essa violência, inclusive esse tipo de fetiche mais cultuado que a droga tem por causa da ilegalidade.
Você ainda usa drogas, Gil?
Não! Eu não tive mais necessidade de excitação mental que a droga dá. E também fui sentido dificuldade com os efeitos colaterais que ela traz. Na verdade, tive um consumo muito restrito. As drogas que consumi por um período mais longo foram a maconha e o ácido lisérgico, por um perído muito curto. Nunca consumi cocaína, heroína, outras drogas.
As drogas então foram usadas por você mais como um forma de abertura de sensações?
Foi uma coisa de descoberta, de expansor ou modificador de estado de consciência. Tive curiosidade. Mas há alguns anos perdi o hábito.
Sessenta anos de idade. Cronologicamente é um peso?
Isso é uma convenção social. É um marco. Na sociedade humana civilizada convencionou-se que 60 anos é o início da terceira idade. Tenho impressão de que muitas vezes tanto a subjetividade quanto questão física do indivíduo não correspondem a isso. Na estrada da vida, como em qualquer estrada, é bom você seguir as sinalizações. Sessenta anos anos na estrada da vida estão querendo dizer que velhice está próxima à direita, mais ou menos assim. A velhice não me assusta. A velhice faz parte da vida, assim como a morte. Não posso me assustar, não devo pelo menos me assustar. Tenho que trabalhar para não me assustar.

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