Aquela mítica noite de 1967
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Nelson Sato <br>Reportagem Local 
A mais notável geração da MPB foi projetada na era de ouro dos festivais. Não há rivais para a safra de intérpretes e compositores surgida na época e que se destacou especialmente no dia 27 de outubro de 1967, quando Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Edu Lobo, Elis Regina e outros não menos ilustres participaram do III Festival de Música Popular Brasileira promovido pela TV Record.
O documentário ''Uma Noite em 1967'', lançado agora em DVD, reconstitui a final histórica do evento e toda a efervescência do período, incluindo a participação eloquente da plateia. Dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, o filme mescla imagens de arquivo da emissora com depoimentos atuais dos artistas. A seleção de imagens reúne desde as apresentações das canções a entrevistas realizadas nos intervalos dos números musicais.
Mais de quarenta anos depois, a atitude de Sérgio Ricardo ao reclamar das vaias, quebrar o violão e atirá-lo sobre o público continua impactante. Ele defendeu a canção "Beto Bom de Bola''. O festival foi vencido por ''Ponteio'', parceria de Edu Lobo com Capinan e interpretado por Lobo e Marilia Medalha, que trazia o verso: ''Quem me dera agora / Eu tivesse uma viola / Para cantar''.
Puxado pela apresentadora Cidinha Campos, Roberto Carlos surge com uma piada pronta durante um dos intervalos da finalíssima do festival: ''Ponteio foi desclassificada. O Edu Lobo não vai poder cantá-la porque o Sérgio Ricardo quebrou a viola dele''. O segundo lugar ficou com ''Domingo no Parque'' de Gilberto Gil; o 3º com ''Roda Viva'' de Chico Buarque; o 4º com ''Alegria Alegria'' de Caetano Veloso; e o 5º com ''Maria, Carnaval e Cinzas'' de Roberto Carlos.
''A gente só queria fazer um bom programa de televisão, porque o festival nada mais era do que um programa de televisão. Acontece que por força das circunstâncias ele foi adquirindo uma importância histórica, cultural, política, sociológica, transcendental que nem imaginávamos na época'', diz Solano Ribeiro, realizador do festival, num dos primeiros depoimentos do DVD.
O jornalista e crítico Sérgio Cabral fala das aflições de ser jurado no festival. ''Lembro que jogaram um ovo que quase acertou em mim e passou perto do Chico Anysio e do Ferreira Gullar. Em uma daquelas noites, eu saí falando 'É um absurdo! É um absurdo!' e fui repetindo isso até sair do teatro só para as pessoas pensarem: 'O Cabral tá revoltado com alguma coisa aí'''.
Um dos depoimentos mais curiosos é trazido por Paulinho Machado de Carvalho, diretor da Record no final dos anos 60: ''Chegaram pra mim e falaram que o Gil não viria cantar sua música. Como eu participava de tudo, fui até o hotel onde ele estava hospedado para saber o que estava acontecendo. A Nana Caymmi, que o namorava na época, abriu a porta do quarto e disse que o Gil estava estirado na cama. Demos um banho nele e o vestimos. Eu mesmo coloquei as meias nele'', recorda.
A introdução da guitarra elétrica na MPB, liderada por Caetano Veloso e Gil com as primeiras manifestações tropicalistas, é tema de um bloco de depoimentos sobre a polarização surgida na época entre ''tradicionalistas'' e ''modernos''. Chico Buarque lembra que se sentia ''sozinho'' e era considerado ''velho'' aos 23 anos. Nelson Motta conta que dois meses antes do festival, uma passeata contra a guitarra elétrica fora organizada por alguns artistas, com presença de Elis Regina, Jair Rodrigues e - curiosamente - Gilberto Gil.
''Eu fui contra'', assinala Caetano. ''Eu e a Nara ficamos longe disso. Ela dizia que aquilo parecia uma passeata fascista do Partido integralista.'' Gil justifica sua adesão por apoio a Elis, mas confessa que não se identificava com o protesto. Três meses depois, ele estaria no palco do Teatro Paramount defendendo ''Domingo no Parque'', acompanhado pelos Mutantes. Daí em diante, a linguagem pop na música popular deixaria de ser interpretada apenas como - no jargão das esquerdas empedernidas - instrumento de colonização dos americanos.
Os extras do DVD completam o rico material embutindo as outras cinco canções que disputaram o título naquele noite: ''O Cantador'', com Elis Regina; ''A Estrada e o Violeiro'', com Sidney Miller e Nara Leão; ''Bom Dia'', com Nana Caymmi; ''Samba de Maria'', com Jair Rodrigues; e ''Gabriela'' com o MPB-4. Há ainda uma leva de depoimentos inéditos fechando um panorama sobre um período dos mais férteis da música popular brasileira.
Serviço:
Lançamento - DVD ''Uma Noite em 67''
Direção - Renato Terra e Ricardo Calil
Estúdio/Distribuição - Videofilmes


