Até que ponto o posicionamento de planetas pode interferir no comportamento humano? Várias opiniões foram reunidas pela Folha2 para encerrar a série sobre a Era de Aquário
Uma série de forças equilibra o universo em expansão. Deste carrossel inexplorado emergem teorias que se desenvolvem e se digladiam desde os primórdios da humanidade. Os astros que pipocam à nossa vista exercem, há milênios, o poder de nos empanturrar de dúvidas. O homem olha para o alto e questiona a própria existência.
Teriam os astros influência sobre o comportamento humano? Até que ponto o posicionamento de planetas interfere em nossa frágil organização? Está em curso uma alteração mundial de valores? Ou será tudo papo-furado, balela, crendice, conversa-para-boi-dormir?
Nesta torre de babel os argumentos divergem, tão múltiplos quanto o conhecimento de cada um. Existem aqueles que acreditam que os tempos são outros e a civilização já iniciou um novo patamar, aqueles que acham tudo isso uma tolice e outros que buscam na simbologia um reflexo dos anseios e dos erros da humanidade. Neste redemoinho científico-filosófico-religioso, a Folha2 buscou opiniões para ampliar o debate sobre a Era de Aquário.
Para a astrologia, não há dúvidas: o momento é de transformação. O alinhamento do último dia 3 teria sido quase idêntico ao de 18 de abril de 1941, segundo o astrólogo orientador Hilário Berlanda, que estuda os astros há 42 anos. A primeira data coincidiu com a Segunda Guerra Mundial, que determinou outros rumos para a civilização.
O conflito, agora, estaria na esfera dos valores. ‘‘Esta nova fase exigirá que as pessoas sejam mais práticas, objetivas e produtivas’’, define. O alinhamento de Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Sol e Lua sobre o signo de Touro indicaria uma nova era na economia mundial, além de favorecer uma consciência coletiva maior em várias áreas. ‘‘Uma das lições que o homem terá que aprender é como cuidar melhor da natureza e da terra onde vive, repensando todos os valores’’, explica.
Nesse redemoinho, surgiriam descobertas na medicina, informática e eletrônica. E, sonho da grande maioria, sobrariam pepinos para os políticos picaretas. ‘‘Muitas máscaras irão cair’’, garante. Os recentes confrontos entre o Movimento dos Sem Terra (MST) e o governo, por exemplo, já estariam ligados aos fenômenos do sistema solar, pois o alinhamento é em Touro – signo associado à terra e questões materiais.
Apesar de muita confusão, a nova era seria extremamente positiva. ‘‘Não deve haver nenhum pessimismo em relação ao Brasil, pois ele será uma das grandes nações desse próximo século’’, garante Berlanda.
Todas esses mudanças teriam começado em 4 de fevereiro de 1962, quando seis planetas se alinharam em Aquário. ‘‘Tudo o que estava fixo e rígido foi desmantelado a partir daí, mudando a história do planeta e fazendo com que as pessoas mais conservadoras levassem um choque’’, diz o astrólogo. Para ele, a Era de Aquário começa para valer em 2020.
Outra estudiosa, a poeta e compositora Alice Ruiz – que desde os nove anos se dedica à astrologia –, concorda. Segundo ela, a contracultura do final dos anos 60 foi um prenúncio da Era de Aquário, iniciando uma nova forma de comunicação e liberdade. Alice afirma que uma nova consciência surgirá a partir da geração que está nascendo agora e que terá um maior autoconhecimento e mais preocupação com o coletivo: ‘‘Esta será a geração que construirá de fato a Era de Aquário.’’
Nem todos, porém, dividem a mesma opinião. Para o padre Silvio Andrei, da Paróquia Santo Antônio, em Cambé, o futuro está nas mãos de Deus. ‘‘O meu amanhã é o resultado de duas certezas: a de que Deus quer o bem dos seus filhos e a de que eu devo agir para conseguir um futuro que realize meus sonhos’’, argumenta.
O desenvolvimento de uma atitude de respeito para a dignidade humana e para a natureza faria parte da palavra de Deus: ‘‘Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo.’’ ‘‘O respeito ao próximo não depende de posições de astros no cosmo. Eu não preciso ficar preocupado com a posição dos astros, mas preciso estar consciente de que precisamos optar pelo amor. O encontro entre Deus e os homens de todas as épocas propõe uma vida de boas atitudes do homem em relação a Deus, em relação ao mundo e em relação a si mesmo.’’
Padre Silvio Andrei cita uma frase do Papa durante um discurso aos bispos dos Estados Unidos: ‘‘A nova era é incompatível com as idéias e a fé da Igreja Católica.’’ ‘‘A sabedoria verdadeira reside quando a criatura busca seu salvador, quando reconhece que depende e precisa de Deus’’, completa.
O respeito ao planeta também é uma das preocupações dos budistas, que não se vinculam a questões astrológicas. ‘‘O budismo não está ligado à Era de Aquário. Os conceitos de zodíaco e horóscopo fazem parte da cultura ocidental, e o budismo é oriental. Por isso ambos não se relacionam e não se tocam’’, explica Haruko Morioka, docente aposentada do curso de Educação Física da Universidade Estadual de Londrina, aprendiz do zen-budismo e discípula da monja Coen, do templo Busshinji de São Paulo.
Mesmo sem vínculos com a astrologia, a estudiosa diz perceber uma aproximação entre pensamentos diferentes. ‘‘Tudo está colaborando para um entendimento maior. Um dos trabalhos de destaque tem sido um encontro inter-religioso. Em São Paulo, e nacionalmente, estão ocorrendo encontros de líderes de diferentes ramos religiosos. Eles entenderam que em vez de brigarem, deve haver uma aproximação buscando paz e amor. As relações humanas estão mudando para melhor. Isso não se pensava tempos atrás, cada um defendia a todo custo a sua primazia’’, ressalta.
A grande meta é ecológica: ‘‘Há uma preocupação bastante crítica sobre a poluição e a reciclagem do lixo. Há a necessidade de se intensificar a consciência de que cada um é responsável pela Terra. Esse será o maior desafio do século 21.’’
À luz da psicologia junguiana o problema maior também está dentro do homem. Para a psicóloga Sonia R. L. Vaz, há um apoio exclusivo no ego consciente em detrimento dos fundamentos da psiquê. A situação provocaria um conflito que originaria guerras e patologias.
‘‘Por trás do símbolo há um desejo coletivo de resgate da cumplicidade, da subjetividade, da paz, da harmonia, etc. A renovação de valores caducos é muito bem-vinda, mas se ela for imposta ao ser humano sob o velho manto do amor ou do senso de responsabilidade social ou de qualquer outra coisa que venha disfarçar as necessidades de poder que estão implícitas nesse desejo coletivo, então teremos novamente uma ‘organização’ com uma monomania, ou seja, um deus tão tirânico quanto o outro’’, considera.
O processo seria cíclico e ininterrupto. Após o estabelecimento de uma ‘‘nova ordem’’, surgiriam novos símbolos que conduziriam a uma organização contrária, e assim por diante. A saída estaria no próprio homem: ‘‘Enquanto o ser humano não sangrar em uma profunda divisão e desmonte de seus valores, admitindo em si mesmo os desejos e suas próprias potências como autor, co-autor, diretor, produtor e ator dessa grande tragédia humana, enquanto se esconder atrás de um símbolo, seja ele divino ou demoníaco, essa psicologia dos contrários estará estabelecida e reinará sem limites. E a história se repetirá, porque na dualidade, sempre haverá exclusões, e onde há exclusões, a diversidade, que é o cerne do ser humano, sempre se embaterá com o inimigo – a tirania’’ - conclui.

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