Aquarelas de Iberê Camargo vão a leilão no Rio
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domingo, 20 de junho de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 21 (AE) - Vinte e sete aquarelas de Iberê Camargo, feitas como cenário e figurino para o balé "Rudá", de Heitor Villa-Lobos, vão estar no pregão, no sábado, no Leilão da Hípica
no Rio, organizado pela antiquária Dagmar Saboya. O lote, cujo lance mínimo será R$ 100 mil, pode ser vendido também separadamente, a R$ 3 mil cada quadro, caso não haja interessados na coleção inteira. Segundo Dagmar Saboya, as aquarelas pertencem a um colecionador que exigiu anonimato e as havia comprado de um crítico de arte.
Os quadros não são datados e no verso de alguns deles há indicações do artista sobre a execução do trabalho. O interessante é que o balé "Rudá", concebido por Villa-Lobos para durar 38 minutos, nunca chegou a ser montado ou, ao menos, não existe nenhum registro de sua encenação no Brasil. Os especialistas no nosso mais famoso compositor erudito, como Maria Augusta Machado, funcionária do museu que leva o nome dele
desconhecem uma encomenda desse teor feita por Villa-Lobos a Iberê. Ela acredita que os guaches foram concebidos e realizados em fins dos anos 50 ou início dos anos 60, quando o compositor já estava morto ou muito doente.
A música estava escrita desde 1951, mas só foi executada pela primeira vez em 1954, pela orquestra da Radiodifusão Francesa, o Teatro Champs Elysées, em Paris. Na época, Iberê Camargo ainda não havia feito nome como pintor e era professor do Instituto Municipal de Belas Artes, que deu origem à Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Por isso, existe a hipótese de o artista ter criado os cenários e figurinos com vistas a uma possível encenação do balé que ainda não estava acertada, mais como um exercício criativo.
"Rudá" mostra a influência que o folclore brasileiro exerceu sobre Villa-Lobos. O nome é o do deus do amor na mitologia marajoara e vários outros símbolos e personagens da cultura americana anterior aos descobrimentos estão presentes na obra. Além de desenhar os cenários pontuados por pirâmides e tótens espalhados diante de uma rotunda negra, Iberê misturou motivos de índios brasileiros, incas e maias nos figurinos. No entanto, não se tem notícia de nenhuma iniciativa para levar a cabo seja a montagem do balé, seja a execução dos figurinos.
A própria existência das aquarelas era desconhecida, embora se saiba que Villa-Lobos era amigo de vários pintores, entre eles Di Cavalcanti, e em diversas ocasiões lhes encomendou cenários e figurinos para balés. Suas primeiras composições com a marca do modernismo e da nacionalidade, são balés: "Danças Características Africanas", de 1916; "O Uirapuru", de 1917, e "O Amazonas", de1919. Leilão - As 27 aquarelas de Iberê Camargo formam o último dos 900 lotes a serem leiloados por Evandro Carneiro, de amanhã (22) a sexta-feira, às 21 horas, e no sábado (quando elas vão a pregão), a partir das 15 horas. Além delas, há vários jogos de jantar da Companhia das Índias (um deles, com lance mínimo de R$ 50 mil, pertenceu ao milionário português Antenor Patiño), um Manabu Mabe (lance mínimo de R$ 52 mil) e uma Djanira (R$ 16 mil), além de santos barrocos (uma Nossa Senhora da Conceição oca, portuguesa, do século 18, a R$ 45 mil), prataria e cristais.
Segundo Dagmar Saboya, que realiza o segundo leilão este ano (o primeiro foi em São Paulo, há um mês), a desvalorização do real só afetou a venda dos objetos de pouco valor. "Os mais preciosos e raros continuam a sair bem e mantiveram o preço", disse ela. "Colecionar arte continua sendo bom investimento".


