Humphrey Bogart está para Gracindo Júnior, de 57 anos, como Clark Gable está para Thiago Lacerda na minissérie ‘‘Aquarela do Brasil’’, de Lauro César Muniz. Por indicação do diretor Jayme Monjardim, o galã da trama da ‘‘Globo’’ deixou crescer um bigode fininho e assistiu a ‘‘E O Vento Levou’’.... Foi o que bastou para começar a ver em seu personagem o pianista Mário Lopes, uma espécie de Reth Buttler tupiniquim. Com Gracindo Júnior, que interpreta o espanhol Garcia, proprietário do Havana Café, o processo não foi tão fácil. As indicações do texto eram para construir um tipo meio Richard Blaine, personagem de Bogart em ‘‘Casablanca’’. Só que, em vez de ajudar, a referência acabou deixando o ator confuso. ‘‘Só o fato de o Garcia ser espanhol já me coloca numa postura diferente. É uma interpretação toda explodida, ao contrário da do Bogart, econômica’’, compara.
Ao começar a gravar no cenário do nigth club, Gracindo encontrou a medida da semelhança. ‘‘O Havana também é inspirado no bar de Casablanca, embora respeitando a reconstituição histórica, pareça-se mais com um cabaré brasileiro da época. Mas, como no bar do Rick, é ali que tudo acontece: o capitão Hélio (Edson Celulari) frequenta o bar e, exatamente como no filme, outros oficiais do exército aparecerão no cenário com a entrada do Brasil na guerra. É ali que se conversa sobre os assuntos do momento’’, argumenta.
Por isso mesmo, a participação de Gracindo, até agora bem modesta, vai aumentar bastante nas próximas semanas. Ex-combatente da guerra civil espanhola, Garcia veio para o Brasil fugindo da ditadura de Franco. ‘‘Por também ser refugiado ele tem grande simpatia pela causa dos judeus e é um grande aliado de Mário, a quem vai ajudar’’, conta o ator, que se emociona com os paralelos entre a História do Brasil de 1937 revista por Lauro César Muniz e a sua própria. ‘‘O Garcia dá abrigo aos dissidentes da ditadura Vargas, como o próprio Mário. Em 64, eu já trabalhava na Rádio Nacional e tive problemas com a ditadura militar’’, lembra.
Na época, o jovem militante do Partido Comunista foi cassado e, junto com 38 nomes de peso como Dias Gomes e Mário Lago, ficou impedido de trabalhar na rádio. Passou quinze anos afastado e até hoje briga na justiça pelos salários que deixou de ganhar na época. ‘‘Olhando para trás, me impressiono ao perceber como aquilo foi grave. Mas também me sinto um privilegiado por ter vivido um restinho daquele momento glorioso do rádio e, sendo filho de quem sou, com conhecimento de causa’’, diz. Um conhecimento que já rendeu pelo menos um fruto. Gracindo Júnior foi o escolhido para coordenar e, provavelmente, apresentar o making off de ‘‘Aquarela do Brasil’’ na ‘‘Rádio Globo’’.
Ainda sem formato definido, o programa substituirá a versão radionovela de ‘‘Aquarela’’, idéia que ganhou força quando a trama ainda era prevista para ir ao ar às seis da tarde, mas acabou inviabilizada com sua transferência para depois das dez da noite. ‘‘Há muito tempo eu planejo voltar ao rádio. Foi uma feliz coincidência’’, comemora o ator, pleiteando mais tempo no ar que os cinco minutos diários cogitados. ‘‘Estamos conversando e devemos ter uma definição já na semana que vem’’, conta.
Outro projeto acalentado com carinho é o lançamento do livro ‘‘Paulo Gracindo, O Bem Amado’’, biografia ilustrada do ator morto em 1995. ‘‘Este é um livro que eu não gostaria de vender, mas distribuir para escolas, centros culturais... O objetivo é preservar a memória do meu pai’’, entusiasma-se.
Ainda em busca de patrocínio, Gracindo Júnior planeja lançar, junto com o livro, um CD-ROM com imagens memoráveis dos 65 anos de carreira do pai, além de uma exposição de fotos e figurinos usados por Paulo Gracindo. ‘‘Se ele foi um grande sucesso na tevê, foi um fenômeno ainda mais estrondoso no rádio. Na sua época, a Rádio Nacional tinha uma dimensão de popularidade maior que a da ‘TV Globo’ hoje’’, diz. E completa: ‘‘A ‘Rádio Carioca’ que aparece na minissérie nada mais é do que a ‘Rádio Nacional’. Por isso este trabalho é tão precioso.’’

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