Aprisionando os nossos DEMÔNIOS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Não é o que parece, mas o outro inferno é o paraíso, onde estamos sempre sozinhos na companhia das nossas dores, miudezas e medos, mas inteiros, como desejamos ser em nossa vaidade e ignorância, podendo cair dessa nuvem a qualquer momento.
Já o filósofo francês existencialista e ateu, Jean-Paul Sartre (1905-1980), tirou esse peso das nossas costas ao afirmar em uma de suas frases célebres na peça ''Entre Quatro Paredes'' (1944), que ''o inferno são os outros'' - o que faz crer que o paraíso é a solidão.
Um estado de vida infernal, que não deixa a gente perceber as chamas que nos consomem - a moral, os prazeres, a inveja, o ódio - uma fogueira alimentada pelos outros.
Luiz Valcazaras, diretor paulistano, que assina espetáculos premiados, como o Prêmio de Melhor Atriz para Berta Zemel dado pela Associação Paulista de Críticos e Arte (APCA), a indicação para o Shell de Melhor Ator em ''Dança Lenta no Local do Crime'' e a premiação Shell de Melhor Autor, Sérgio Roveri, pelo texto de ''Abre As Asas Sobre Nós'', peça apresentada no Festival Internacional de Londrina 2007, afunilou a ironia de Sartre no texto para caber no peça ''Então é Assim!'', que o grupo londrinense ''Criando a Liberdade'' apresenta.
Com temporada até 7 de outubro, sempre de terça-feira a domingo, no Museu de Arte de Londrina (MAL), a montagem toma de assalto o espaço, transformado numa instalação, para que os personagens da adaptação e o público conheçam o inferno, que se torna mais real para algumas pessoas, somente quando a vida é estilhaçada pelos olhos impiedosos dos outros: o nosso inferno, que ora liberta ou aprisiona os nossos demônios.
''Inês'', interpretada por Letícia Ferreira, é uma lésbica, que vai morar na casa de um primo e se apaixona pela mulher dele. Uma tragédia os arrasta ao inferno, onde terão que dividir não mais o amor, mas tudo o que sobra sem ele.
No elenco ainda os atores Ed Sombrio, que interpreta ''Garcin'', Ana Sardinha, como ''Estelle',' e o criado, interpretado por Apollo Theodoro, o personagem que abre as portas desse inferno para o público.
''O inferno é justamente, quando as pessoas são vistas, analisadas pelos outros. Quis criar no espetáculo uma instalação, com um tapete de 12 metros de lona no mezanino, coberto com cacos de vidro. As janelas do museu têm uma transparência, criando um efeito interessante com a iluminação. É uma interferência na cidade, um diálogo'', conta Valcazaras sobre a escolha do espaço da antiga Estação Rodoviária.
Para falar do inferno na montagem, Valcazaras cita outro espetáculo que dirige em São Paulo, o monólogo ''Assovio'', com a atriz Martha Nowil, que deve estrear dia 18 de outubro.
''A gente sempre espera que o inferno seja quente. Para mim é frio. Se alguém patologicamente tem síndrome do pânico ou claustrofobia vai estar no inferno porque a mente também está aprisionada. Você pode prender uma pessoa e não o pensamento dela'', acrescenta o diretor.
Na montagem londrinense do grupo, que há quatro anos desenvolve um projeto na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), um dos motivos que levou Valcazaras a mergulhar nesse inferno, o elenco andará em cacos de vidro, cortando a carne dos pés de qualquer segurança do público.
Para isso, os espectadores entram num texto não pelas palavras originais, mas pela entonação do que Sartre diz nos personagens condenados a permanecerem juntos, sendo cada um, o inferno do outro.
''A gente fez um trabalho com o Valcazaras de escrever o texto, antes de falar, o que ajudou na parte de memorização. A maior diferença desse processo é que fomos descobrindo o significado das palavras, o que torna mais fácil conhecer os personagens. Eles não podem deitar sobre os cacos de vidro, o que já é um inferno'', explica Letícia.
Além do patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), o grupo recebeu apoio do Prêmio Funarte de Teatro Myriamn Muniz para a montagem.
No MAL transformado em espaço cênico, os outros são assim... o inferno, enquanto nós um paraíso, que arde sem saber.
SERVIÇO:
- Peça teatral ''Então é Assim!''
Quando - De terça-feira a domingo até 7 de setembro; aos sábados, às 18h30 e 20h30
Onde - Museu de Arte de Londrina
Quanto - Ingressos a R$ 6,00 e R$ 3,00(meia-entrada)


