Apresentadora recusa baixarias
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de julho de 2002
Keila Jimenez<br> Agência Estado 
Não vender a alma por ibope, nunca. Esse é lema da apresentadora Olga Bongiovanni, que, no comando do ''Dia Dia'', na ''Band'', faz de tudo para fugir da fórmula que soma falso assistencialismo, fofoca e receitas sem pé nem cabeça, que recheiam os programas femininos de todos os canais. Apesar de nobre, a missão não é fácil. Viver com a pressão da audiência e suas cobranças sem perder respeito pelo público é o desafio da jornalista. Mesmo assim, com apenas 2 pontos de audiência, seu programa está entre os líderes de faturamento da emissora.
Em entrevista, Olga fala sobre essas e outras maratonas. Aos 47 anos, a radialista de carteirinha conta como deixou tudo: filhos, casamento, família e amigos no sul do País, para seguir carreira em São Paulo e sobre a vontade de comandar um programa noturno na ''Band''.
Como você dribla as pressões do ibope apostando em qualidade?
Não há necessidade de vender a alma para conseguir audiência e um bom faturamento. Ibope é bom, mas respeito pelo público e credibilidade são melhores. Tenho de tomar muito cuidado com qualquer comentário que faço na TV. Aprendi isso com o rádio, onde comecei trabalhar. Minhas palavras podem influenciar pessoas, informar, e podem e destruí-las também. Tenho um compromisso com meu público. Não consigo trabalhar pensando que tenho de fazer as pessoas chorarem, ou jorrar sangue. Essa não é minha praia. Há alguns dias, fiquei emocionada com uma história de um senhor no programa. Nessas horas, você tem de ter respeito pelo ser humano. A dor é só dele e eu não posso explorar isso. Prefiro chamar o intervalo comercial. Esse é o meu estilo, cada apresentador tem o seu.
Por que você deixou de trabalhar em rádio?
Comecei na rádio em Cascavel (PR) e trabalhei 27 anos no meio. Comecei em TV em 82, por causa da rádio. Fazia a locução da ficha técnica dos programas. Um dia, faltou uma repórter e me colocaram no lugar. Comecei a apresentar jornalísticos na TV local e, em 99, vim parar na ''Band''. Deixei o rádio no ano passado. Passei a apresentar o ''Dia-a-Dia'', que tem três horas ao vivo, e não consegui conciliar. Perdi 8 quilos nessa correria.
Como foi deixar sua família e amigos para tentar a vida em outra cidade?
Vim para São Paulo sozinha, pois não sabia no que ia dar. Tenho dois filhos, um de 23 anos e outro de 20 , e eles acabaram ficando no Sul, pois já tinham um vida lá. Sempre trabalhei muito e costumo dizer que nossa relação é de qualidade, não de quantidade. Não consegui ser 100% presente, mas tentei ser 100% mãe. Tentei, mas, às vezes, dá um aperto no coração. Lembro de meu caçula, que quando tinha 10 anos, ficou me esperando chegar do trabalho na escada de casa para dizer que estava com saudade. O pior é que eu tinha de entrar em outro trabalho na sequência. Aquela imagem nunca mais saiu da minha cabeça.
Já sofreu pressões por causa de seu estilo?
Já. É preço que se paga por agir seguindo a consciência. Quando trabalhava em uma rádio no Sul, comprei um briga com a igreja. Fiz um programa falando sobre o uso da camisinha, e, quando saí da rádio, tinha um monte de beatas, inclusive o padre, esperando para me linchar. Imagine a confusão. As pressões não me assustam.
Você já cometeu erros graves no ar?
Claro. Como o programa é ao vivo, acontece. Uma vez perguntei no ar para a Betty Guzzo (filha do Valetino Guzzo, famoso produtor de TV, e que fez a ''Vovó Mafalda'') como estava o pai dela. Ele tinha morrido já fazia algum tempo e eu sabia disso, tinha dado a notícia no programa. Quis sumir naquele dia.
Como é ter um programa rotulado de feminino, que nada tem dessa linha?
Não tem jeito, as pessoas rotulam mesmo. Apesar de ter um enfoque mais jornalístico, não há como fugir disso. Sei que o meu programa tem uma boa aceitação do público masculino. Sei também que minhas telespectadoras sabem que eu as vejo de outra forma: não só como mulher de forno e fogão. Elas cozinham, cuidam da casa, mas também gostam de estar bem informadas, de votar com consciência, de entender de economia.
Você é líder de merchandising na ''Band''. Não dá medo anunciar tantos produtos arriscando sua imagem?
Já até consultei psicólogo por isso, de tanto que me preocupo. Tento tomar cuidado com o que anuncio. Acho que sou responsável por isso também. Como já disse, sou responsável por tudo o que falo no ar.
Você tem projetos novos na ''Band''?
Tenho a vontade de ter um programa de variedades noturno. A direção sabe disso. Falo que esse é o meu objetivo, porque ''sonho'' a gente pode não alcançar. Objetivo, a gente não descansa até conseguir.


