Aprendizes e mestres da batucada
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sexta-feira, 01 de março de 2019
Walkiria Vieira <br> Reportagem Local 
Até quem não entende do assunto, respeita a bateria de uma escola de samba ou de um bloco de Carnaval - graças a energia que ela traz. As pessoas, os instrumentos e o ritmo, não passam despercebidos. As experiências de quem batuca profissionalmente e de quem aprendeu recentemente podem se juntar. A vibração é para todos, contagiante e democrática. Amadores e profissionais se realizam nas batidas, que são tão intensas quanto organizadas.
A professora de Matemática Marise Gomes Corrêa, 58 anos, sempre gostou de música e o samba traz para ela alegria de viver. "Quando criança fiz aula de piano, mas comecei a fazer aula de canto e percussão há quatro anos". O empurrãozinho veio de amigos. Assídua nas rodas de samba e choro, Corrêa conta que em um dos eventos em que estava havia um tantan e ninguém para tocar. "Colocaram no meu colo, pediram para eu fazer um barulho e depois falaram que eu tinha ritmo". Na sequência, mais um incentivo: "Ganhei de aniversário um tantan de uma amiga". Desde então, a professora tem também sua versão aluna: de canto e percussão.

Dedicada dentro de suas possibilidades, Corrêa considera que a evolução e a exigência são proporcionais. "Para mim é um lazer, mas antes eu tocava intuitivamente. Daí, a gente vai aprendendo, ficando mais segura e ao mesmo tempo mais crítica, com mais objetivos e passa a evidenciar mais as próprias falhas". Sem pretensões profissionais, a aprendiz se sente realizada. "Sou uma iniciante com a sorte de tocar com pessoas experientes e quando sou convidada, aceito tocar. Sou muito bem acolhida", alegra-se. A música como um todo é para ela um instrumento de aproximação. "Faço amigos das mais diferentes idades, viagens, passeios e sou muito mais feliz hoje. Acredito que isso estava latente em mim e por isso, em tão pouco tempo, conheci tanta gente e me tornei tão conhecida." Em seu facebook, Corrêa mantém a agenda semanal dos eventos de samba e choro de Londrina. "Agora nas férias não fiz e houve reclamação", brinca.
Grata a todos que promoveram seu encontro com a arte da música, ela cita algumas pessoas: "Paulo Vitor é meu professor de canto e devo a Duda de Souza, Marcelo Alemão, Camila Rios e Suyane Alves o que sei sobre percussão". Em 2018, Correa fez sua estreia com o grupo formado só por mulheres, Samba Delas:"Foram duas apresentações. Uma no Dia do Samba e uma na homenagem a Beth Carvalho, rainha do samba. Essa última foi uma experiência emocionante porque foi um evento simultâneo em que na mesma hora, dia e instante, várias rodas de samba do Brasil e de fora tocavam, no mesmo tom, no mesmo andamento. Foi o 1º Encontro Nacional de Mulheres na Roda de Samba, em 11 cidades, 10 no Brasil e 1 na Argentina", detalha. Mais tímida para soltar a voz do que para tocar , comemora seu crescimento: "Por trás do instrumento, eu me solto".

Carnaval é só emoção
"A percussão dá o molho, um swing para a música". Entre vários significados, assim o professor e percussionista profissional Eduardo de Souza, 38 anos, define a percussão. Apresentado à música pelos braços do pai, recorda: "Todo ano meu pai me levava para ver os desfiles das escolas de samba e eu queria entrar no meio. Desde então me emocionava muito". E ainda é assim. Por mais tempo que passe e com tantos carnavais vividos, os instrumentos de bateria e percussão vibrando juntos mexem com os sentidos e sentimentos do músico. "Fui me apaixonando pelo batuque. Aos 17 anos ganhei um atabaque e passei a fazer aulas com o professor Gilson Corsaletti". Aos 21, Souza já dava seus conhecimentos. "Dava aula de graça. Era uma forma de rever o que aprendi, peguei gosto e naturalmente houve uma procura e então passei a lecionar em escola." Tamborim, cuíca, atabaque e surdo estão entre os instrumentos que as pessoas desejam aprender com Duda, como é chamado no meio. "Pandeiro também, símbolo nosso da MPB. Do ponto de vista do mestre, batucar e cantar, é só começar. "Não há limite de idade para aprender, basta vontade. Você vai se aprofundando nos ritmos, na cultura e é uma alegria muito grande passar isso para o público". Com a rotina dividida entre aulas, apresentações com os grupos Bafo Quente e Mama Quilla, gravações e a participação em vários projetos, Souza sente-se satisfeito por fazer o que ama. Hoje, entre seus alunos está a percussionista Marise Gomes Corrêa.

Batucada até no altar
Participar de uma oficina foi a maneira que o servidor público Fernando Pavaneli,36 anos e sua esposa, Ana Gameiro Pavaneli, 33, encontraram de se aproximar da música. "Como ainda não éramos casados, era uma forma da gente se ver mais vezes também", explica Fernando Pavaneli. De mansinho, o casal foi ganhando intimidade na oficina de Percussão do Bloco Bafo Quente. "Ana foi acompanhar duas aulas e se apaixonou pelo surdo. Eu me propus a tocar tamborim, foi uma experiência muito proveitosa porque além das aulas também participávamos de apresentações no Aterro do Lago Igapó com direito a frio na barriga". Para eles, que sabiam apenas o nome de alguns instrumentos, foi uma lição atrás da outra. "Todos os alunos foram passando por todos os instrumentos pra ver com o que se identificavam mais e eu aprendi vários tipos de levadas de ritmos e estilos musicais encaixados dentro dos instrumentos de percussão".
Entre uma semana e outra, mantinham o ritmo das aulas onde estavam. "Colocávamos músicas em um pen drive e isso ampliou os nossos conhecimentos e nosso repertório musical". Das aulas da oficina em grupo para os treinos solo, em um mês Pavaneli já tinha um tamborim para chamar de seu e também ensaiava em casa. "O vizinho nunca reclamou, mas sei que é barulhento, agudo, então eu só treinava no horário comercial. Já nas aulas em grupo, era tranquilo. Todos estavam lá para aprender, então não tem que se preocupar com vergonha". De um modo geral, o servidor conta que a atividade serviu também para relaxar e sair da rotina. Os encontros eram semanais, o curso que durou um ano marcou um período de ótimas lembranças para Ana e Fernando. "Nós gostamos tanto dos instrumentos e do Bloco que entramos tocando junto com eles no nosso casamento", conta Ana.


