APRENDIZ DE FEITCEIRO
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de setembro de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
A literatura infantil sempre foi repleta de bruxas malvadas, feiticeiros poderosos, duendes simpáticos, dragões ferozes, unicórnios singelos e outros seres da fauna fantástica. De época em época um desses personagens imaginários ganha repentina popularidade e se transforma numa verdadeira febre.
Atualmente testemunhamos a febre Harry Potter. Criada pela escritora britânica Joanne Kathleen Rowling, a história infanto-juvenil do pequeno aprendiz de bruxo se transformou em coqueluche mundial. Publicado em 42 países, a obra, composta de quatro volumes, tem despertado verdadeiras paixões tanto no público infantil-juvenil como no leitor adulto.
O esperado segundo volume da série, Harry Potter e a Câmara Secreta, acaba de ser lançado pela Editora Rocco e parece mostrar, de maneira mais definida, as verdadeiras características. Se no primeiro volume ficava latente que o poder de sedução da obra não estava exatamente na criação de um universo fantástico, o segundo volume vem deixar isso claro.
J. K. Rowling utiliza os mesmos ingredientes presentes em dezenas de romances similares, sem novidades. A simbólica, e eterna, batalha entre o bem e o mal, um arquétipo recorrente na literatura, é a base de sua história. O próprio imaginário fantástico do universo das feitiçarias se apresenta como plano secundário dentro da narrativa.
A autora faz uso do mistério, da aventura, do suspense, e até mesmo do gênero policial, para apresentar a história e o cotidiano de um colégio interno do ponto de vista de seus alunos. Esse é o único mérito de J. K. Rowling.
Existem dezenas de histórias que possuem como cenário colégios internos - onde os argumentos se apresentam nas relações entre os alunos e entre alunos e professores. E claro, e principalmente, nas grandes aventuras dos alunos em desafiar e violar as rígidas regras da instituição. J. K. Rowling faz uso desses argumentos inserindo-os não num colégio comum, mas num colégio interno de bruxos e bruxas.
Assim como o primeiro volume da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal, narrava o primeiro ano de Harry na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, o segundo volume, Harry Potter e a Câmara Secreta, apresenta seu segundo ano no colégio. Assim como no primeiro volume Harry tinha que desvendar, com ajuda dos amigos, o mistério do roubo da Pedra Filosofal, no segundo volume precisa desvendar o mistério da Câmara Secreta. Sem grandes novidades, a imagem do pequeno herói que precisa desafiar a ordem vigente para provar suas certezas e, superando as dificuldades com coragem, recebe todos os louros. O personagem Harry, ao nascer, já está predestinado a ser um grande feiticeiro, o único que terá poder de vencer o mal e restaurar o bem. Todo e qualquer fracasso em sua aventura será totalmente provisório, pois nasceu herói e será previsivelmente herói para o resto de sua vida.
Aproveitando o grande interesse despertado pelas aventuras de Harry Potter, vale citar outras obras correlatas das quais J. K. Rowling retirou, visivelmente, grande parte dos ingrediente que compõem sua obra. Primeiro o indescritível O Senhor dos Anéis (Editora Martins Fontes, 1994) do escritor inglês J. R. R. Tolkien que, com seus três volumes, pode ser descrito como um poderoso clássico do gênero. Segundo, a trilogia criada pelo também inglês, Philip Pullman, protagonizada pelo menino Will e pela garota Lyra na aventura de salvar o mundo de sua destruição pelas forças do mal. A obra recebeu vários prêmios de literatura infanto-juvenil na Europa. No Brasil foram publicados apenas dois volumes, A Bússola Dourada (Editora Objetiva, 1998) a A Faca Sutil (Editora Objetiva, 1999). Terceiro, o surrado A História Sem Fim (Editora Martins Fontes, 1986) do escritor alemão Michel Ende, onde a aventura ganha elegantes proporções na fantástica viagem do garoto Bastian.
Harry Potter e a Câmara Secreta de J. K. Rowling, Editora Rocco, tradução de Lia Wyler, 288 páginas, R$ 22,00.


