'Aprendi a tocar por obra de Deus'
Dos dez filhos de dona Clisolita, só quatro sobreviveram à miséria. Entre eles, Nelson da Silva. Foi a pobreza que o levou a tocar um instrumento de corda pela primeira vez. Tinha 11 anos. Estava com vermes. "O médico deu remédio, mas falou que eu precisava comer bastante durante o tratamento", recorda. Só que não havia fartura na casa de Clisolita.
O jeito foi aceitar o convite de uma amiga. O menino foi fazer o tratamento no sítio de dona Madalena. "Ela tinha um coração de ouro e 12 filhos. Alguns tocavam violão e cavaquinho." Foi com um dos jovens, que ouviu o primeiro samba: "Encontrei minha amada", de Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti, gravado por Orlando Silva no carnaval de 1940.
Depois de observar o rapaz mais velho ao cavaquinho, pediu para segurar o instrumento. Isolou-se num quarto e, de primeira e de ouvido, tocou a melodia que acabara de conhecer. "Aprendi a tocar por obra de Deus." Só pode ser.
O pai do mineiro morreu quando ele tinha 8 anos. Ainda menino, Nelson acompanhava os seresteiros a se apresentar de sítio em sítio. Na época, não havia cachê. Cantava-se por prazer. Ia descalço, porque sapato que é bom, só conseguiu aos 15 anos. Primeiro, o incumbiram de "tocar colher". Depois, foi uma espécie de reco-reco feito pelo próprio líder dos músicos. Na sequência, assumiu o tamborim. E
depois, um violão em-
prestado.
O próprio instrumento, só foi ter em São Paulo, em 1970, aos 35 anos de idade presente de uma colega de trabalho. O mineiro resolveu arriscar a vida na metrópole aos 18 anos. Foi servente de pedreiro, dormiu muitas noites no chão, em cima de sacos de cimento. Foi trabalhar como faxineiro no Serviço Social da Indústria (Sesi), onde se aposentou em 1992, como chefe de almoxarifado.
De 1953, quando chegou a São Paulo, até 1970, Seo Nelson tocou esporadicamente. Só começou a se apresentar na noite paulistana em 1978, aos 43 anos. Trabalhou em várias casas noturnas. No início dos anos 1990, estreou no Maksoud Plaza, local que, na época, só aceitava os mestres. O último dia no hotel, ele não esquece. Foi 30 de julho de 1994, na implantação do Plano Real. "Meu colega foi me deixar em casa à noite, depois da apresentação. O ladrão veio e levou o violão", recorda.
O fato o chateou demais. E mesmo tendo ganhado um novo Di Giorgio no Dia dos Pais, não voltou a tocar no Maksoud. Mas Londri-
na o recebeu de braços
abertos.
Vida longa, Seo Nelson. O samba agradece. (N.B.)





