Aprender na escola. E fora dela
Filme de Xavier Legrand mostra a angústia de um julgamento que decide o futuro do filho de um casal separado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de abril de 2019
Filme de Xavier Legrand mostra a angústia de um julgamento que decide o futuro do filho de um casal separado
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Neste caso, escola a que me refiro é a de Direito. E seus desdobramentos – OAB, escolas de magistratura, etc. Fora dela, a vida como ela é. Deve existir entre as milhares de faculdade de Direito no país (é impossível, absurdo que não existam) – vá lá, em nível extracurricular – um segmento audiovisual que ofereça, para utilização paradidática permanente, títulos de filmes (ficção ou documentários) com enfoque nas atribulações inerentes à esta temática específica. Uma filmoteca minimamente decente.
Onde, por exemplo, deveria estar este primeiro longa-metragem do diretor francês Xavier Legrand, “Custódia” (Jusqu’à la Garde, 2018), que entra hoje em exibição na cidade.
O filme abre de maneira fria e direta, mostrando uma juíza decidindo sobre a custódia de um menino de 11 anos, Julien, entre os pais, Miriam e Antoine. As respectivas advogadas do casal vão esmiuçando as razões por que seus clientes têm razão nas petições. A mãe deseja a custódia para protegê-lo do pai; este pede que o filho fique com ele, pois é o acha justo.
A exposição dos fatos é realista; as partes são vistas sem que se tome partido, deixando ao espectador na dúvida sobre qual dos dois diz a verdade. Por isso não surpreende quando a juíza decide que a custódia seja compartilhada. O tom muito próximo ao documentário vai então contrastar com o desenrolar da trama, com a convicção de que o que se assistiu foi a representação da mentira de um dos cônjuges: a realidade está oculta sob camadas que não pudemos perceber à primeira vista.
Em assustadora progressão, descobrimos que essa realidade é o que se esconde atrás do medo que Julien sente pelo pai, já que este logo começará a mostrar seu ensandecido e violentíssimo caráter. Pelo menos dois momentos – no carro e quando ele joga a mochila na cara do garoto quando este não responde ao repetitivo interrogatório sobre sua mãe – resultam em violência extrema porque Legrand mantem a tensão em cada encontro entre pai e filho. Tensão obtida com rigor e ritmo em crescendo, coadjuvada por atores soberbos.

O diretor Legrand brilha não somente no desenvolvimento da uma história que nos magnetiza e nos conduz a uma voragem de horror, mas também quando utiliza de certos elementos formais do cinema de gênero para transmitir toda a angústia ao terrível assédio a que são submetidos mãe e filho. E isto sem abandonar jamais o aspecto realista e verdadeiro do que é narrado.
Impressiona muito como Legrand deixa claro que a violência machista não pode ser contada de outra forma que não através do relato do terror. Por isso, a última parte se insere diretamente no terreno do pesadelo. Mas, repito, um pesadelo real. Há um ser malévolo nesta narrativa. Talvez o mais complicado neste tipo de relato paradoxalmente tão delicado seja não cair na manipulação e no sensacionalismo. E Legrand consegue de afastar de qualquer tentação maniqueísta graças à delicadeza e precisão que demonstre ter por trás da câmera.
É importante notar o respeito que o cineasta – pasmem: é seu filme de estreia! – sente pela história e por seus personagens. É bastante provável que cada cena tenha sido perfeitamente milimetrada para provocar uma reação no espectador; mas isto é obtido de maneira tão natural e honesta que o filme termina arrastando e aprisionando o publico em toda sua dolorosa e monstruosa complexidade.
O que se vê na tela é algo que, lamentavelmente, não pertence somente à ficção. Pelo contrário, é habitual, demolidor e terrível.


