Esqueça definitivamente a lição "The book is on the table". O modelo 'decoreba' de sentenças e listas de verbos e substantivos em inglês está totalmente defasado. No lugar, aulas criativas e lúdicas, em que crianças têm contato com a aprendizagem significativa, são cada vez mais adotadas por professores. Há oito anos, o projeto Londrina Global, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação (SME) de Londrina, que atende 14 mil alunos do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano) em 42 escolas da cidade, destaca-se por inovar com os alunos, que, antes, começavam a ter contato com a língua inglesa apenas a partir do 6º ano. Pouco mais de 40 professores habilitados em Letras Anglo ou com proficiência em Inglês participam do projeto.
Uma vez por mês, todos esses professores participam de uma atividade de formação continuada fornecida pela Secretaria, cujo objetivo é discutir os princípios do ensino de inglês para as crianças, focando nos principais pontos da metodologia aplicada. "Nos encontros são debatidas as principais abordagens tratadas nas aulas, como a ludicidade; o currículo em espiral, que permite a adaptação de temáticas para tornar o curso interdisciplinar; a aprendizagem por meio de literatura infantil, poemas e cantigas; a educação integral, que trata dos aspectos de desenvolvimento afetivo, cognitivo e social da língua, entre outros", explica Rafaeli Peres, uma das coordenadoras. As aulas não estão na grade curricular, entram como atividades extras.
Na Escola Municipal Mábio Gonçalves Palhano (região Sul), os alunos esperam ansiosos a aula animada da professora Maria Luiza Cândido Tomaz. Acompanhada de sua maleta, ela chega na sala de aula já cumprimentando em inglês. Prontamente, as crianças do 3º ano respondem. Depois de situá-los sobre o dia da semana e a condição climática, a professora abre a mala e tira de dentro seu fiel amigo "Jhon", um boneco. Mesclando palavras em inglês e português, ele interage com cada um e começa a cantar uma música. Todas acompanham na cantoria, fazendo gestos de acordo com as letras, que ora falam de objetos ou partes do corpo.
Atentos, todos obedecem aos comandos do boneco que, agora, propõe a brincadeira dos fantoches. Entusiasmados, os alunos não param de olhar para a maleta cheia deles.
Trata-se da "Ghost Family" (Família Fantasma em inglês), em que cada fantoche representa um membro da família. "What's sister? And father?", pergunta Jhon, referindo-se à irmã e pai. Um a um, as crianças vão pegando os bonecos e formando a grande família fantasma. Os que ficam observando precisam adivinhar quem é quem na história, sempre em inglês. Antes de iniciarem a brincadeira, porém, o boneco começa a cantar novamente e todos acompanham fazendo uma coreografia.
Além dos fantoches da família, há outros de animais e dedoches utilizados com as crianças menores. Entre as brincadeiras, estão o jogo de memória, confeccionado pelos próprios alunos, o famoso bingo das palavras, filmes e músicas. "Busco sempre sair do tradicional para que a aula não fique cansativa, ainda mais se tratando de crianças pequenas. Por isso, o livro é apenas um apoio em minhas aulas. A ideia é sempre prender a atenção da criança de maneira que ela assimile o conteúdo de forma prazerosa", pontua a professora, dizendo que sempre utilizou elementos lúdicos e surpresas em suas aulas, incluindo com os alunos mais velhos.
Segundo ela, esse formato de aula mais dinâmico e divertido faz com que os alunos entrem na fantasia e externalizem seus sentimentos. "Percebo que as crianças tímidas, por exemplo, têm mais facilidade em se manifestar com os fantoches. Os jogos proporcionam interação entre eles e o vocabulário. Além disso, a linguagem visual dos gestos e figuras ajuda a fixar o conteúdo, pois eles fazem relação do que estão aprendendo com o que estão vendo."
A professora destaca que essa relação, inclusive, acontece no dia a dia das crianças, com jogos de videogame e na televisão. "Quando reconhecem e entendem as palavras no seu universo, a autoestima se eleva, ao mesmo tempo em que a visão de mundo é ampliada."
Mesmo que ainda não consigam formar frases completas, a professora faz questão de falar quase tudo em inglês, com alguma intervenção em português. "A repetição em falar em inglês com eles propicia que o ouvido se acostume com as palavras. Quando forem aprender os verbos e conjugações lá na frente, no processo formal, não vai ser um choque, como acontece com muitos alunos que acabam pegando aversão à língua. Temos a experiência de vários alunos que passaram por aqui e estão tendo um ótimo desempenho no 6º ano", comenta.

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