O filme foi produzido pela extinta RKO, mas é a Fox que traz aos cinéfilos uma edição de luxo de ''Cidadão Kane'', o filme mais elogiado e pouco visto de toda a história do cinema. Muito comentado pelos simples fato de Orson Welles, aos 25 anos e em seu primeiro filme, ter reunido no distante ano de 1941 todas as inovações da linguagem cinematográfica daquela época. Pouco visto por tratar de uma temática difícil, fechada ao grande público que costumeiramente se direciona à fácil diversão.
Essa não é a primeira versão digital do filme a ser lançada no País. Há três anos, a Continental lançou uma versão modesta, sem muitas novidades. Agora chegam os adicionais que tanto agradam os amantes do DVD - biografia de diretor e atores, um documentário especial sobre a batalha para o lançamento do filme, cópias do storyboard e o áudio original da adaptação que Welles realizou no rádio para ''Guerra dos Mundos'', de H. G. Wells.
''Kane'' sofre do mesmo estigma que marcou obras como ''Ulysses'', de James Joyce ou ''Em Busca do Tempo Perdido'', de Marcel Proust. Poucos leram, mas muitos incluem nas listas dos ''mais mais''. Contudo não faltam qualidades nessa película tão injustiçada pelo público. Não há nada até hoje mais requintado (no visual), ágil (na narrativa), moderno (no uso do som como elemento-chave), exuberante (na capacidade de Orson em criar figuras ricamente complexas, de cunho psicológico a la Shakespeare).
''Kane'' só chegou às nossas plagas nos anos 50. Era tempo em que Paulo Emílio Salles Gomes, José Lino Grunewald e Rubem Biáfora comentavam as obras para os leitores. Discutiam e pensavam a película, é bom que se diga. Ampliavam a compreensão do filme a telas nunca vistas pelo espectador.
Enfim, ''Kane'' é obra de gênio no alto da impetuosidade criativa de um artista; no momento raro que uniu tantos artesãos talentosos - Gregg Tolland (fotógrafo), Robert Wise (montador), Bernard Herrman (trilha sonora) e Herman J. Mankiewicz (co-roteirista); na vontade incessante de Welles em retratar toda a grandiosidade do mundo em lentes nunca usadas e mentes pouco mostradas nos dramas comuns de Hollywood. É a maior obra que um estúdio já produziu, pois afinal, quem a criou, foi uma mente barroca, iluminada pela paixão por Shakespeare, Joshep Conrad e Edgar Allan Poe. E como dizia Glauber Rocha, ''o que importa não é a técnica, é o homem por trás da câmera''.
Lançamento da Fox: 119 minutos.
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''Chinatown'': um dos últimos clássicos do cinema ''noir''
''Chinatown''
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A prosa americana pode não ser uma das melhores do mundo, mas ninguém retrata com tanta elegância o mundo do crime como eles. Basta lembrar do fraseado de Dashiel Hammet ou de Raymond Chandler, entre tantos bons autores policiais. No cinema, um dos gêneros exclusivos dos americanos (ao lado do western) é o policial ''noir'' (negro em francês). Um dos últimos clássicos dessa linha chega agora em DVD - ''Chinatown'', produção do polonês Roman Polanski da época em que ele era um grande diretor, 1974.
É a história básica de um bom noir - detetive investiga caso de corrupção que envolve magnata. A trindade Jack Nicholson, Faye Dunaway (no auge da beleza) e John Huston (como o pai incestuoso) interpretam os papéis centrais e atribuem à trama um tom trágico raramente dimensionado no cinema americano. É filme prá ver, rever, discutir e lembrar. Em outras linhas, um clássico.
E para agradar mais ainda os fãs, há um extra considerável: entrevistas com diretor, elenco e o pessoal da produção (todas com legenda, o que é raro no Brasil), comentando o processo de criação de uma das principais fitas americanas dos 70, a época em que os estúdios ousaram a realidade e Hollywood incrivelmente amadureceu.
Lançamento: Paramount. Duração: 130 minutos.
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''Quem Tem Medo de Virginia Woolf'': mesmo após 35 anos, o filme mantém o vigor
''Quem Tem Medo de Virginia Woolf''
Há poucos textos teatrais levados à película com êxito respeitável. Exceção justíssima a ''Quem Tem Medo de Virginia Woolf'', adaptação que o então jovem Mike Nichols realizou do texto de Edward Albee, um dos expoentes da off-Broadway. Revisto hoje, 35 anos após a estréia nos cinemas, o filme mantém o vigor, ancorado na melhor atuação da dupla Richard Burton e Elizabeth Taylor. Levou quatro Oscar, mas não atingiu o grande público. A crueza dos diálogos e a realidade insuportável do casal protagonista não agrada em nenhum momento o espectador.
Pois esse é o objetivo de Albee. Imcomodar o público até este não suportar mais o espelho que lhe é proposto. Na linha dos grandes dramaturgos americanos do século 20 - Tennesse Williams e Eugene O'Neill -, o autor radiografa um casamento aparentemente estável, mas que se sustenta nas migalhas da omissão entre o casal, tão frequente no decorrer dos anos. A beleza de Taylor se torna sombria à luz da tragédia proposta por Albee, um momento raro no cinema e de grandeza dramática imperdível. Sem restrições ao filme e sem extras.
Lançamento: Warner. Duração: 129 minutos.

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