Aposta da Globo fracassou com baixa audiência
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de maio de 1999
Por Luiz Costa 
São Paulo, 03 (AE) - A versão anos 90 de "Pecado Capital" tinha tudo para ser um sucesso dramático e público. Passados 23 anos do original de Janete Clair, a trama ainda ressoa no imaginário brasileiro e o momento era propício à história: questões éticas são oportunas, tanto no filme "Central do Brasil" como na CPI dos bancos, nas denúncias de máfias de fiscais e no dinheiro roubado que Carlão (Eduardo Moscovis) encontra no banco de trás de seu táxi. Mas a novela atual chega à sua semana final como uma decepção, tanto na audiência (tem médias de, no máximo, 28 pontos, quando a meta é 35), como na condução dramática e, principalmente, na escalação de atores para seus papéis.
Com "Pecado Capital", a Globo apostou no que era certo e se deu mal. Primeiro, ao querer repetir a química que o casal Eduardo Moscovis e Carolina Ferraz conseguiu em "Por Amor". Química, no entanto, só funciona quando há corpos reagindo: o amor entre Carlão e Lucinha exigia mais presença dramática, mais conflito expresso, coisa que a limpidez classuda de Carolina e a inexpressividade de Moscovis não supriram. Como um efeito em cadeia, a frigidez do par central fez desmoronar todo o edifício narrativo.
Os problemas de escalação multiplicaram-se nos vilões e nos heróis dos vários núcleos. A história, carregada com a mão pesada de Glória Perez, não sustentou a fragilidade de casting, nem foi ousada em sua atualização. O original de 1976 marcou a história da TV em muitos sentidos. De cara, foi um feito industrial de Janete Clair, obrigada a criar, em um mês, uma trama para substituir "Roque Santeiro", a novela de seu marido Dias Gomes, que foi para a gaveta por obra da censura.
A primeira novela das 8 colorida da TV brasileira usou o cinza da realidade urbana para contar uma versão, em preto-e-branco, de um Fausto suburbano. Carlão é o bom moço que se rende à tentação do diabo e perde a alma em troca de fama e fortuna. A morte de Carlão, no último capítulo, ficou no imaginário brasileiro. Contrariava a máxima do gênero da redenção final do protagonista. Tal licença dramática correspondia a uma mensagem de intolerância social: a virtude, atributo do bom burguês Salviano (Lima Duarte), é uma moeda leviana nas mãos do sonhador proletário. A virtude classe C é representada por Lucinha (Betty Faria), que sobe na vida casando com o empresário (saída mais folhetinesca, impossível).
No início, Carlão quer devolver o dinheiro roubado e esquecido em seu táxi. Sucessivas vezes tenta, mas não consegue devolver a fortuna, até que sucumbe. Trapaceia nos negócios, passa a perna em desfavorecidos, muda seus princípios (constituir família, herdar a integridade do pai, lutar pelo grande amor). É verdade que em 23 anos muita coisa muda. A ética é outra, mais permissiva, e a audiência, mais pulverizada. Recontar uma história é uma forma de homenagem. Em "Pecado Capital", virou mera bala de festim.


