Após a pandemia, a busca de um admirável mundo novo
Depois do premonitório espetáculo 'Oração Para o Fim do Mundo' (2017), o Ballet de Londrina trabalha na concepção de uma montagem após a epidemia do século
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quinta-feira, 02 de abril de 2020
Depois do premonitório espetáculo 'Oração Para o Fim do Mundo' (2017), o Ballet de Londrina trabalha na concepção de uma montagem após a epidemia do século
Marcos Roman - Grupo Folha
Em 2017, o Ballet de Londrina traduziu por meio da dança o que o grupo definia como um grito de descrença pelo que resultou da humanidade. Batizado como “Oração Para o Fim do Mundo”, o espetáculo apocalíptico levou aos palcos questões urgentes como o preconceito, a intolerância, o ataque às minorias, a violência, o bullying, as guerras, o ódio e o genocídio tão comuns nos tempos atuais. Acreditando que o caos instaurado pela pandemia de coronavírus representa a oportunidade de construção de uma nova era, o premiado grupo londrinense agora trabalha na concepção de montagem que falará sobre a humanidade depois da Covid-19.
“Em ‘Oração Para o Fim do Mundo’ a gente falava que a humanidade não tinha mais como continuar vivendo daquela forma egoísta e sem empatia nenhuma com os menos favorecidos. Aquele mundo acabou de se encerrar. Nos cabe agora enquanto sociedade humana construir algo mais solidário. É sobre isso que queremos refletir em ‘Admirável Mundo Novo’, que ainda é um título provisório deste projeto”, revela Leonardo Ramos, diretor e coreógrafo do Ballet de Londrina.
Ele afirma que as ideias sobre a nova montagem começaram a surgir no final de 2019, antes do início da pandemia da Covid-19, e ainda não tem previsão de estreia. “No fim do ano passado, a gente já estava vislumbrando o início de um mundo novo e mais humano. E a pandemia de coronavírus veio para confirmar que o momento de reconstrução chegou. Agora temos essa missão que é muito maior e mais difícil, pois confesso que ainda estou perdido, pois no meio desse caos está difícil ver luz do final do túnel”, ressalta.
Apesar da crise atual provocada pelo cancelamento de espetáculos, Ramos acredita que a classe artística conseguirá se reinventar para superar os problemas financeiros. “O Ballet de Londrina, por exemplo, estava no meio de uma turnê que passaria por 11 cidades paranaenses e ainda faltavam seis delas quando tudo foi paralisado. Além dos problemas financeiros, a classe artística tem sido vista como vilã desde o final do governo Dilma e isso se intensificou nas gestões de Temer e Bolsonaro. Segundo os grandes filósofos, a arte é a maneira de entender a humanidade, e não pode parar nunca. Então tenho certeza de que vamos continuar resistindo e vamos conseguir nos reinventar até mesmo no meio desse colapso”, enfatiza.
O coreógrafo diz que isolamento social adotado para conter a disseminação do novo coronavírus é uma oportunidade de reflexão sobre a existência humana. “Precisamos refletir sobre o desprezo aos menos favorecidos e a maneira como a gente trata o outro. É hora de restringir o nosso consumo e poluir menos o mundo. O mais importante neste momento é ficarmos em casa mesmo com toda a pressão capitalista que existe, pois não há capital sem vida”, conclui Ramos.
Arte e vida
O espetáculo “Oração Para o Fim do Mundo” foi criado em 2017. O elenco de 12 bailarinos aborda temas que norteiam a convivência humana nos últimos tempos. Referências às religiões aparecem na coreografia para lembrar que, por mais que elas tentem um percurso de iluminação e caridade, o homem persiste indisposto ao convívio pacífico com seus semelhantes.
Assista a um trecho do espetáculo Oração Para o Fim do Mundo com o Ballet de Londrina