A forma de fazer cultura em Londrina passa por transformações. A fase paternalista em que a Secretaria Municipal de Cultura patrocinava a totalidade dos valores solicitados dos projetos aprovados na Lei Municipal de Incentivo à Cultura, ao que tudo indica, ficou no passado.
Um dos pontos nevrálgicos da linha de ação da atual Secretaria de Cultura – que até causou insatisfação em parte dos produtores culturais – se refere ao incentivo aos projetos culturais e não patrocínio total. ‘‘Os projetos de maior valor, podem ser inscritos na Lei Rouanet. Aqui é Secretaria de política cultural. Queremos deixar clara a idéia de transformar cultura em política pública’’, defende o Secretário de Cultura, Bernardo Pellegrini. Esse ano o valor médio dos projetos ficou em torno de R$ 10 mil. Algumas propostas receberam cortes de até 70%.
‘‘A Lei funcionou no ano passado. Temos uma comunidade produtiva, articulando política e culturalmente’’, afirma Pellegrini. De 50 projetos aprovados no ano 2000, esse ano atingiu a marca de 142 propostas. Para ele, não é possível atender aos interesses de minorias e a Lei de Incentivo pode ser renda mínima para muitos produtores culturais da cidade.
A Secretaria Municipal de Cultura saiu de uma administração de uma ‘‘mãe omissa’’ para os braços de um ‘‘pai bonachão’’. Esse ponto de vista se enquadra na visão paternalista de quem faz cultura esperando o mecenato integral de produções. Essa visão, em parte, se deve à forma de atuação do Secretário Bernardo Pellegrini, que otimizou o atendimento aos produtores culturais, traçou uma nova linha estratégica de atuação do órgão, com a tendência à horizontalização da produção cultural. E é fato que em 2001, a vida cultural em Londrina ganhou um impulso considerável.
Um dos exemplos do fomento da produção cultural em Londrina aconteceu na área de música. Foram produzidos por volta de 40 CDs em Londrina, muitos não patrocinados pela Lei. Dentro da política dos projetos estratégicos, em novembro será criada uma grande feira do CD em Londrina. ‘‘Queremos dar dinheiro para os donos de rádios tocar a produção dos músicos locais e os donos de lojas terem os CDs para vender’’, revela o Secretário.
Outra característica ainda em fase de iniciação é o intercâmbio com expoentes fora de Londrina. A oxigenação de idéias aconteceu com o músico Braz da Viola, que trabalhou com o Grupo Viola de Coité e assinou um espetáculo com o Ballezinho de Londrina. O pensamento de que a produção cultural deve ficar restrita às pessoas da cidade, para Bernardo é ‘‘um método provinciano’’. A idéia é ampliar parcerias para esse ano. E para isso, um dos grandes problemas enfrentados pela pasta é a falta de infra-estrutura, mais precisamente ausência de espaços culturais na cidade.
Mas a contratação do mestre capoeirista Anande das Areias, considerado uma das maiores autoridades do setor no País, acabou acirrando críticas. Segundo o Secretário, foram oferecidas oficinas a todos os grupos de capoeira atuantes na cidade e todos foram convidados a participar. Segundo Pellegrini, existem oito novas famílias de capoeiristas na cidade, contrapondo-se ao antigo monopólio no setor. Mestre Fran, tradicional capoeirista e proprietário de academias na cidade, afirma à reportagem da Folha2 que não sintoniza com a soma-capoeira, vertente na qual Anande das Areias milita. Sentindo-se alijado do processo, com projeto inscrito e reprovado na lei desse ano, Mestre Fran está programando uma manifestação nos próximos dias, por discordar da postura de Pellegrini no setor.
Também na base da pirâmide na linha de atuação da Secretaria de Cultura, os chamados Projetos Estratégicos pretendem dar dimensão de ação cultural a grandes comunidades, criar novos circuitos de culturas - esse ano o Filo e o FML vão interagir com essa filosofia - e potencializar as atividades culturais da cidade.(F.F.)

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