'Apocalypse' para o novo milênio
É desde já um dos melhores lançamentos do ano. Apocalypse Now (veja a programação de cinema na página 2) , agora em versão expandida e definitiva do épico de guerra de Francis Ford Coppola, reafirma e revigora o status do filme como um dos expoentes do new american cinema surgido nos anos 70. E como uma das indiscutíveis obras-primas do diretor, ao lado de O Poderoso Chefão, partes um e dois. Vencedora da Palma de Ouro em Cannes-79, esta meditação surreal, operística e filosófica, que tem a insanidade da guerra como tema principal, só teve a ganhar com o acréscimo de 47 minutos - 202 no total.
Vinte e três anos depois da primeira exibição pública, Apocalypse continua a fascinar teóricos, críticos, cinéfilos e espectadores como fenômeno cultural, muito mais como evento de mídia do que como produto hollywoodiano. Muito se escreveu sobre as problemáticas filmagens e o período de pós-produção deste brilhante tour de force. Raramente a realização prática, braçal, o trabalho de fabricar um filme resultou em empreitada tão difícil. Foram ao todo 238 dias, entre filmagens nas Filipinas, montagem e mixagem nos Estados Unidos. 250 horas de películas. Orçamento inicial de U$ 17 milhões, logo estourado para 30. Um furacão que destruiu em minutos um set inteiro de um milhão de dólares. Um enfarte que manteve o ator Martin Sheen afastado e inativo por quase dois meses. A crescente e indesejada obesidade de Marlon Brando. Um estado de tensão permanente, registrado pela então mulher do diretor, Eleonor Coppola, no documentário No Coração das Trevas, o Apocalypse de Um Cineasta. Ela foi a primeira a traçar um paralelo entre a loucura do coronel Kurtz, o herói infernal do livro de Joseph Conrad em que John Milius baseou o roteiro do filme, e o estado de excitação que tomou conta do marido à frente de um exército de centenas de atores, figurantes, técnicos, aviões, helicópteros e parafernálias diversas.
Maio de 77, aos 40 anos, em crise existencial, familiar e financeira, Coppola chega ao fim da aventura das filmagens. Agora são mais dois anos por conta de montagem e sonorização. De projeção em projeção, ele suprime cenas, sequências inteiras. Abril de 79, o filme, ainda sem versão definitiva, como work in progress (obra não acabada, ainda em andamento), é selecionado para competir em Cannes. Boa parte da imprensa americana vaticina o fracasso. O júri, felizmente, tem outra opinião, e divide a Palma de Ouro entre Apocalypse e O Tambor, do alemão Volker Schlondorff. Na estréia nos Estados Unidos, o filme desfruta de enorme sucesso e acaba arrecadando três vezes mais o seu custo. Mas a história do filme não estava terminada.
Há dois anos, muito mais do que simplesmente reinserir cenas e sequências suprimidas ou nunca antes editadas, Coppola mergulhou fundo nos negativos. E de lá retirou uma nova versão do filme. Falando à Folha ano passado em Cannes, ele explicou o principal motivo desta retomada: Sempre achei que o espectador daquela época considerou Apocalypse uma experiência um tanto estranha, desconcertante, sem falar em toda a controvérsia em torno do filme. Muita gente fez inclusive comparações com 2001. O público de agora não vê a primeira versão como o público de 20 anos atrás. E vai ver esta nova versão como uma obra que radicaliza todo o experimentalismo. Acho que o espectador de hoje está mais disposto a esta nova forma.
A julgar pela evidência na tela, é um enorme prazer concluir que a adição dos 49 minutos de material nunca visto previamente enriqueceu a obra, proporcionando uma outra textura. Mais especificamente, Apocalypse Now Redux está politicamente mais substancioso, mais articulado em sua pregação antibélica, mais contextualizado em relação ao envolvimento ocidental no Vietnam. E não somente norte-americano, mas pela via francesa, discutida numa longa (25 minutos) sequência inédita e crucial quando a patrulha do Coronel Willard (Martin Sheen) encontra um núcleo de rancorosos franceses militaristas e colonialistas que se recusaram a deixar a região. Outro ganho considerável fica por conta da ênfase na perda da inocência dos jovens marines incorporados à missão de Willard ao longo do rio - encontrar e liquidar o supostamente ensandecido Kurtz. Há ainda a reposição de várias cenas em que aparecem as coelhinhas da Playboy, descartadas da primeira versão porque o furacão havia destruído grande parte dos cenários, impedindo as outras filmagens previstas no roteiro. Por outro lado, foram agregadas novas cenas com o coronel Kilgore (Robert Duvall) , o antológico militar surfista que se deliciava com o perfume# de napalm. E afinal, também o ângulo moral de toda a história resultou bem melhor aproveitado, com a inclusão de cena decisiva: rodeado de crianças, o coronel Kurtz (Brando) lê para o prisioneiro Willard um artigo da revista Time. O texto e o contexto não deixam dúvidas de que o filme não é apenas libelo antibélico, mas um esforço efetivo no sentido de expor mentiras e tramóias que regem o complexo mídia-indústria-militarismo.





