'Apocalipse 1,11', o teatro na maioridade
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sexta-feira, 24 de maio de 2002
Francelino França Reportagem Local 
O espetáculo Apocalipse 1,11, dramaturgia de Fernando Bonassi e direção de Antônio Araújo, mostrou nos limites do Cadeião da Rua Sergipe, em Londrina, o trabalho fabuloso dos atores da companhia Teatro da Vertigem, de São Paulo. A capacidade de entrega do elenco foi decisiva para selar a idéia de Araújo de um teatro realista.
Apocalipse trabalha essencialmente com os sentidos. O odor do esgoto, a música ensurdecedora, a interpretação visceral e a inserção num ambiente ícone da degradação humana ampliaram os sentidos. Pela fé e violência, desestabilizam-se as crenças e dogmas. O povo (público) sendo conduzido resignadamente pelos vários ambientes da cadeia serviu de metalinguagem ao que a dramaturgia perseguiu.
Exagerada na encenação, e isso ajudou a oprimir o público, Apocalipse condensou parte de nossa identidade, do nosso inconsciente coletivo. Não queremos aceitar o racismo, a breguice e a forma diante da qual nos confrontamos com o divino. A busca pelo excesso está implícita na proposta de uma montagem de alta complexidade, moldada a cada local, que se tornou um investimento de alto risco e tem um retorno comovente.
Na última quinta-feira, na cena do massacre do Carandiru, nos corredores apertados do Cadeião, muita gente chorava. Afinal, o que foi dito nos corredores do Carandiru no momento do massacre? No salve lindo pendão da esperança, o ambiente deprimente e angustiante fazia o público pensar no portão de saída. Depois dessa apresentação, quando o público se retirava do Cadeião, quatro andarilhos bêbados brigavam com pedaços de pau e um alicate na calçada. Parecia que o espetáculo continuava. Eles se misturavam com os espectadores e, por pouco, não foram agredidos.


