São Paulo, 13 (AE) - Estréia amanhã (14) no Presídio do Hipódromo "Apocalipse 1,11" com o grupo Teatro da Vertigem, dirigido por Antônio Araújo. Sem dúvida um dos mais talentosos entre os jovens diretores brasileiros, Araújo encerra agora uma trilogia bíblica iniciada com "Paraíso Perdido" e "O Livro de Jó". Na primeira, com texto de Sérgio Carvalho, o diretor fez de uma igreja o cenário para falar sobre a perda da inocência do homem no Éden, a passagem do estado de graça e da imortalidade para a miséria da condição humana, causada pelo pecado da desobediência.
No premiadíssimo "O Livro de Jó", com texto de Luís Alberto de Abreu, o hospital desativado Humberto Primo foi o palco da brilhante interpretação de Matheus Nachtergaele para o personagem bíblico que se purifica dos pecados e alcança a salvação pelo sofrimento. Agora, em "Apocalipse 1,11", o tema do julgamento final terá como cenário um presídio desativado há apenas cinco anos. "Ambientamos o espetáculo num presídio por ser um lugar onde se segregam os culpados e, portanto, tem a ver com a idéia de julgamento e punição", comentou Araújo. Chacina - O texto foi criado pelo escritor Fernando Bonassi a partir de improvisações do elenco sobre o original bíblico. "A idéia foi manter ao longo de todo o espetáculo um diálogo com o texto bíblico, porém trazendo o apocalipse para aqui e agora", diz Bonassi. O tom desse diálogo já aparece no título. O "1 11" é a um só tempo referência ao capítulo 1, versículo 11, do "Apocalipse segundo João" e aos 111 mortos na chacina do Carandiru.
No versículo 11, João tem um visão de Cristo, que, com uma voz forte como o som de uma trombeta, lhe diz que anote tudo o que vai ver num livro e depois o envie as sete igrejas da ásia. Daí em diante, o profeta João verá vários sinais espetaculares do juízo final, um aviso aos cristãos de que apenas alguns justos chegarão a Nova Jerusalém, a cidade mítica, após o julgamento final. "De todos os textos bíblicos, o "Apocalipse" é o que trabalha mais fortemente com a idéia do medo", comenta Araújo.
No espetáculo, o João que busca a cidade mítica não é um profeta, mas um personagem caracterizado como um brasileiro pobre e comum. Ele é conduzido a dar testemunho dos "sinais do apocalipse" que o público identificará como sinais muito próximos de nós. Entre eles, o episódio do massacre dos 111 detentos do Carandiru e a exploração da ignorância e da pobreza no conhecido estilo "mundo-cão". Um grande show apresentado pela prostituta Babilônia (Mariana Lima) e pela Besta (Roberto áudio) mostra "números" que remetem à falsa espiritualidade de algumas seitas e à exploração do grotesco, prática cada dia mais comum em alguns programas da TV brasileira.
Na encenação do Teatro da Vertigem, a "revelação mítica" é substituída pela "tomada de consciência". Como se antes de entrar no presídio ele buscasse de olhos fechados uma cidade mítica e a "visão" da realidade abrisse seus olhos para os sinais do apocalipse na sua cidade. E também para a possibilidade de fazer dela uma Nova Jerusalém. Como nos espetáculos anteriores, o público é conduzido pelo elenco a percorrer o espaço cênico, nesse caso passando por celas, corredores e pátios. Não se trata do chamado espetáculo "interativo", mas o objetivo é fazer com que o espectador tenha a sensação de viver a mesma experiência do personagem central. E, como ele, tenha a oportunidade de transformar-se com a experiência. Aqui e agora - Como sempre, a intenção do diretor é atingir o público por meio dos sentidos e por eles tentar quebrar o "amortecimento" coletivo. No início do espetáculo, o personagem abandona a cidade em busca dessa Nova Jerusalém idealizada, feita de ouro e marfim. Ao fim, a porta do presídio é aberta para que personagem e público saiam livres para a sua cidade. Antes de sair, simbolicamente, ele esvazia sua mala. "A trajetória que tentamos desenhar para o personagem, não sei se ficou clara, é a de alguém que retorna à mesma cidade de onde veio, porém modificado, com a consciência de que a Nova Jerusalém pode ser aqui e agora, depende do homem", observa Araújo.
"Não nos apropriamos do texto do Apocalipse para fazer futurologia, mas sim para falar do momento presente". Uma das primeiras cenas da peça, espécie de síntese do pensamento central - uma garotinha que ateia fogo num vasinho de flores sem modificar em nada a doce expressão com a qual as regara antes -, mostra a intenção do grupo em não transferir culpas ou salvar a pele de ninguém. Todos somos inteiramente responsáveis pelo que há de bom e ruim no Planeta. "Embora seja um espetáculo forte e pesado, ele não é pessimista, pois eu não o faria caso não acreditasse na possibilidade de transformação do País". Serviço - "Apocalipse 1,11". Dramaturgia de Fernando Bonassi. Direção de Antonio Araújo. Duração: 1h10. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 20,00 (quinta); R$ 25,00 (sexta e domingo); R$ 30,00 (sábado). Presídio do Hipódromo. Rua do Hipódromo, 600, tel. 9354-7321. Até 30/4

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