Apesar de Hopkins, falta reflexão ao suspense 'Confinado'
Filme que estreia nesta quinta-feira (29) tem atores de peso numa trama que soa como de segunda classe
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de maio de 2025
Filme que estreia nesta quinta-feira (29) tem atores de peso numa trama que soa como de segunda classe
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Em 2019, o diretor argentino Mariano Cohn dirigiu sua estréia no longa-metragem, “4 x 4”, um sufocante thriller de suspense. No filme havia um garotão das ruas (cabelo louro tingido, camisa de futebol, corrente dourada no pescoço) que tentava roubar um carro. Não um carro qualquer, mas um que se fechou hermeticamente com ele dentro, iniciando assim um longo caminho de tortura psicológica e sofrimento infligido pelo dono do veículo, que controlava os dispositivos remotamente.
Seu remake americano é “Locked Up”, baseado em premissa semelhante. No Brasil o filme foi rebatizado como “Confinado”, e estreia nesta quinta-feira (29), em Londrina.
Um jovem entra em um SUV ultraluxuoso para roubar algo valioso que ele pode vender. Calmamente procura e até experimenta alguns óculos. Mas quando Eddie Barrish (Bill Skarsgård, o palhaço de “A Coisa”) tenta sair, é tarde demais: o veículo é lacrado, à prova de som e suas janelas escuras impedem que qualquer pessoa de fora perceba o que vai em seu interior. Até que um telefone toca no painel. Do outro lado, uma voz reconhecível: a de Anthony Hopkins, que diz se chamar William, médico, vítima de vários assaltos e pai de uma filha assassinada na porta de sua casa durante um deles. E é aí que reside a questão central que o filme não mostra competência em abordar, já que o dilema ético se desfaz tão rapidamente quanto a tensão narrativa.
FILME B DE SUSPENSE
Com Hopkins apresentando vários monólogos que tentam explicar o sentido daquilo que o espectador assiste (e justificar sua augusta presença em filme de segunda mão), “Confinado” arranca como um promissor filme B de suspense sobre enclausuramento e se transforma em sermão anti-woke, no qual pobreza é culpa dos pobres e marginalização é sinônimo de preguiça.
Os intérpretes mantêm sua posição profissional mesmo que o roteiro seja apenas mera formalidade - o carro como prisão pode, a princípio, parecer uma novidade, mas você definitivamente já viu isso antes, e é convidado a compactuar com sua fórmula de fábula perversa e misantropa, ao que se acrescenta uma marca punitiva em linha com os sentimentos das “boas pessoas”, aquelas que se levantam todas as manhãs para fazer o país avançar.

Nesse sentido, com a bela fotografia (bela porque criativa e funcional) de Michael Dallatorre, o trabalho correto de Skarsgård e Hopkins e as boas intenções discursivas de fundo, sintetizadas na luta de classes entre a indignação egoísta e risível dos privilegiados e o desespero dos necessitados, não podemos esconder que o filme é, redundante e pregador, e como qualquer remake vindo dos EUA é desnecessário e confunde em alguns momentos justiça sem moral com uma vulgar vingança de louco...
* Confira a programação de cinema no site da FOLHA.


