APERTANDO OS PARAFUSOS DO PESCOÇO
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de março de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Para os olhos, as certezas são elementos profundamente sólidos. Para as mãos, a coisa muda de figura. Quando colocadas na palma da mão, as certezas viram substância líquida que escorre pelos vãos dos dedos. Tudo indica que com as incertezas ocorre o movimento contrário. À luz dos olhos parecem elementos voláteis, impalpáveis. Mas, quando tocadas pelas mãos, convertem-se em substâncias sólidas e prováveis.
Em seu novo livro, Pescoço Ladeado por Parafusos, o escritor Manoel Carlos Karam trabalha com essa alquimia. Em suas mãos as incertezas assumem a sólida forma que as certezas normalmente parecem ter. As possibilidades tornam-se fundamentos da realidade. O escritor se mantém fiel à característica que permeia todo seu trabalho, aquilo que ele chama de literatura fora de esquadro
Lançado pela editora Ciência do Acidente, Pescoço Ladeado por Parafusos apresenta várias narrativas paralelas. Numa delas o narrador apresenta breves relatos de uma guerra que coleciona episódios nonsenses; em outra traz investigações sobre as características humanas do universo dos números; em outra ainda realiza um projeto de um bestiário; e por fim a detalhada busca de um personagem para ser protagonista de um hipotético romance. Dessa forma, as narrativas comunicam-se entre si de maneira a não formar um corpo homogêneo.
Karam arrisca-se em propor uma extensa lista de possibilidades para uma possível história. Para isso utiliza uma linguagem que caminha para o infinito, pois todas as possibilidades são passíveis de atenção. O resultado é uma tentativa de uma história, bem como de um personagem, que se torna o romance em si. O prefácio literário torna-se a própria literatura.
Pescoço Ladeado por Parafusos é o quinto livro do autor que publicou anteriormente Fontes Murmurantes (1985), O Impostor no Baile de Máscaras (1992), Cebola (1997) e Comendo Bolacha Maria no Dia de São Nunca (1999). Karam, ao lado de Valêncio Xavier, revela a literatura mais dissonante e instigante produzida atualmente no Paraná. A seguir, o escritor fala sobre seu novo trabalho e os projetos para o futuro.
Pescoço Ladeado Por Parafusos pode ser considerado uma reflexão sobre a literatura, sobre o ato da escrita?
Partindo da idéia de que a maneira de contar uma história é mais emocionante do que a história, sim, é uma reflexão sobre a literatura.
A estrutura da narrativa do livro rompe com a tradicional linearidade do gênero romance. Seria uma maneira metafórica de dialogar com a realidade cada dia mais fragmentada dos dias de hoje?
Na orelha do livro, o Marçal Aquino diz que atualmente nem as novelas da Globo são lineares. Eu sempre considerei começo-meio-fim uma possibilidade de desordem, nunca uma ordem. E uma forma de desordem é abolir o começo e o fim, ficar apenas com o meio. No Pescoço, os fragmentos Projeto de bestiário são meios.
O livro apresenta uma incessante, quase delirante, busca por um personagem. A angústia da criação de personagens literários do texto seria um outro lado, com uma dose de ironia, de Seis Personagens à Procura de um Autor de Pirandello?
Talvez tenha alguma relação com o Pira (quando eu fazia teatro, tínhamos esta intimidade com ele), mas inconsciente. Premeditado mesmo só o dr. Victor Frankenstein, muito mais o personagem cinematográfico do que o literário, é claro.
No romance você cria um universo infestado de incertezas. Incertezas sobre incertezas. Qual, na sua opinião, seria o papel da incerteza na literatura e na própria existência humana?
Não sei se eu conseguiria escrever um livro sobre as certezas humanas. Mas não tenho muita certeza se é assim mesmo. Gracejo à parte, a imperfeição humana é o que me atrai, é dela que eu trato, imperfeitamente.
Sua literatura percorre um caminho pouco usual, faz uso de um estilo próprio. Como você definiria, ou descreveria, sua obra?
Perguntaram a respeito de um dos meus livros: é sobre o quê? Eu respondi que se pudesse definir o meu livro com duas ou três frases não teria escrito 250 páginas. Esta virou a minha resposta-padrão para perguntas que me exigem teorizar. Não é o meu ramo, agora há pouco falei sobre começo-meio-fim porque escapou, e acho mesmo que no fundo não quero é criar rótulos. Mas volta e meia me perguntam e acabo falando que faço uma literatura fora de esquadro. E ultimamente tenho pensado muito na palavra imprudência, e neste caso ela me agrada muito.
No final de Pescoço Ladeado Por Parafusos o narrador deixa claro que o livro é uma espécie de introdução a um outro livro com uma história propriamente dita. Que livro seria esse? Ele pode ser real ou apenas simbólico?
Quando escrevi Fontes Murmurantes, espécie de painel de um país, imaginei que isto poderia continuar e que depois de país viria a cidade, e que depois da cidade seria a vez da casa e que avançaria até a pessoa. Foi assim que vieram depois O Impostor no Baile de Máscaras, a cidade, Cebola, a casa, e Pescoço Ladeado por Parafusos, a pessoa. Eu sempre tratei este projeto como quarteto, não pretendia me referir a quinteto por enquanto. Você foi o primeiro a perceber o quinteto, então eu conto. Sim, o livro está pronto e deve ser o próximo editado. Chama-se Encrenca, a aventura do personagem saído de Pescoço Ladeado por Parafusos. É um bocado diferente dos meus outros livros, mas eu não tenho certeza.
Existem outros projetos?
Além de Encrenca tenho mais um livro pronto, não digo o nome do segundo porque está sujeito a mudança. E trabalho num terceiro há dois anos e acho que vai outro tanto até terminar. É coisa para mais de 500 páginas, e já escrevi o dito cujo duas vezes, estou na terceira, mas não se preocupe, não enlouqueço antes da quinta ou sexta, ainda tenho tempo.
Pescoço Ladeado por Parafusos - De Manoel Carlos Karam, Edições Ciência do Acidente (telefone: (11) 3871-9606 / e-mail: [email protected]), 184 páginas, R$ 21,00.


