Apertando o cinto
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segunda-feira, 19 de janeiro de 1998
Ranulfo Pedreiro Londrina 
Mario CésarPúblico das videolocadoras está cada vez mais exigente e quer lançamentos ao alcance das mãosO avanço das TVs por assinatura e a disputa pela audiência entre as TVs abertas estão comprometendo um mercado que chegou à década de 90 em franca expansão: a locação de fitas de vídeo. O movimento tem diminuído nas locadoras, que enfrentam concorrência até de novelas, jogos de futebol e eventos culturais, justamente numa época em que a indústria do cinema nos Estados Unidos bateu recordes ao faturar US$ 6,2 bilhões.
Um dos motivos é a expansão das TVs por assinatura, mas a falta de dinheiro é geral e também influencia. Além disso, o público está voltado para os lançamentos e se tornou muito exigente, nós temos que ter todas as novidades, comenta Suely Matos, da Delta Vídeo, de Londrina.
O faturamento do cinema americano é visto com bons olhos pela empresária. É bom, pois se o cinema vai bem o mercado de vídeo melhora. Quando as pessoas vão mais ao cinema também acabam locando mais filmes, ficam ligadas nos lançamentos e novidades. Os melhores clientes também vão ao cinema e não gostam muito de televisão, completa.
Com o mercado retraído, muitas locadoras estão fechando. Várias não aguentaram e ninguém pode dizer que o movimento está bom. As pessoas estão direcionando o dinheiro para comprar casa própria ou fazer outros investimentos, e a queda do poder financeiro é geral. Tenho clientes antigos que cortaram supérfluos, como cerveja e locadora, ressalta Marco Aurélio Barreiros, gerente da London Vídeo, de Londrina.
Barreiros assegura que a TV paga, quando se instalou na cidade, chegou a diminuir o movimento da locadora em 60%: Hoje em dia já não atrapalha muito porque a programação não oferece tantas opções, e os filmes passam em horários que os clientes não vêem, além de ter apenas dois ou três lançamentos de ponta por mês.
A TV por assinatura interfere também no número de cópias compradas pelas locadoras. Antigamente, quando surgia um filme de sucesso, nós podíamos comprar até dez fitas. Agora a TV por assinatura passa com um intervalo de seis meses em relação ao lançamento em vídeo, e o número de cópias compradas diminuiu, esclarece Marco Aurélio.
Em alguns casos a TV por assinatura assume a dianteira e consegue o lançamento antes da locadora. Foi o que aconteceu com O Corcunda, que passou no cabo e ninguém veio procurar, completa.
Para se manterem atualizadas, as locadoras são obrigadas a comprar de 80 a 100 títulos por mês, e, segundo Marco Aurélio, uma fita chega a custar R$ 75,00. Se for alugada a R$ 3,00, a fita tem que sair muitas vezes para se pagar, o que geralmente ocorre em cerca de dois meses. Mas se o filme passar na TV você perde dinheiro, porque a fita não sai da estante, acrescenta.
Mas a TV aberta também influencia o mercado de vídeo. Temos dois grandes concorrentes: as novelas da Globo e transmissão de jogos de futebol. As novelas terminam muito tarde, e aí a pessoa não se anima a começar a ver um filme, revela Suely Matos. Alguns eventos também colaboram para a permanência das fitas nas prateleiras, como shows, espetáculos, peças de teatro e competições esportivas. Por outro lado, o horário político contribui para as locações.
EstabilizaçãoPara a jornalista Neusa Maria Amaral, que defendeu dissertação de mestrado sobre TV paga no Brasil, o mercado tende a se estabilizar. A TV paga está em fase de consolidação no Brasil e a tendência é que as locadoras continuem perdendo público. Mas vai chegar um momento em que o mercado vai se estabilizar, após a consolidação.
A grande concorrência, segundo Neusa Amaral, virá com a expansão da TV por satélite, que distribuirá por sistema pay-per-view os lançamentos ao mesmo tempo que as locadoras. É uma tecnologia que ainda não está muito difundida no Brasil, mas vai piorar o mercado porque o assinante pagará para assistir aos lançamentos.
A jornalista explica que, nos Estados Unidos, o mercado é mais amadurecido e permite o convívio de várias tecnologias. Esse amadurecimento também deve ocorrer no Brasil, mas temos que levar em conta que existe TV a cabo nos Estados Unidos desde 1957. No Brasil as pessoas ainda ficam deslumbradas, mas depois de algum tempo voltam para os cinemas e para as locadoras. Enquanto o amadurecimento não vem, as videolocadoras sobrevivem com um público ávido por lançamentos ou cinéfilos em busca de filmes raros, clássicos ou europeus - um público que permanece fiel aos recursos do videocassete.


