àpera "O Escravo", de Carlos Gomes, estréia em SP na sexta; depois segue para o Rio, BH e mais 5 cidades
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segunda-feira, 12 de julho de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 13 (AE) - Os motivos relacionados pelo diretor da empreitada, Fernando Bicudo, para encenar esta ópera são muitos. Carlos Gomes é o mais importante compositor brasileiro do século passado. Foi o segundo autor mais encenado no teatro La Scala de Milão na primeira década do século, perdendo apenas para Verdi. Foi o primeiro nativo do Novo Mundo a vencer na Europa. Por essas e outras, chega ao Teatro Municipal de São Paulo, na sexta, a ópera "O Escravo" (Lo Schiavo), de Antônio Carlos Gomes, uma superprodução de R$ 4 milhões que já estréia com uma baixa significativa: a soprano norte-americana Aprile Millo, que faria a personagem principal, cancelou suas apresentações. Em carta divulgada pela produção, Aprile conta que o seu "pai de criação" morreu no dia 7, em Nova York, e que ela não tem condições emocionais de apresentar-se ao público.
É uma gincana operística. "O Escravo", que não era encenada há 11 anos, fica até segunda-feira no Teatro Municipal de São Paulo e depois vai para o Municipal do Rio. Em seguida, percorre outras seis cidades em um mês e meio: Belo Horizonte, São João del Rey, Brasília, Belém, São Luís e Salvador. "É uma cruzada pela brasilidade", diz o diretor da montagem, Fernando Bicudo. "Essa é a mais perfeita musicalmente, a mais brasileira das óperas de Carlos Gomes", afirma Bicudo, um dos que torceu o nariz para a montagem de "O Guarani", encenada na Europa e em Washington com Placido Domingo no papel principal. "Aquela era uma versão muito germânica", lembra o diretor. "É hora de colocar a pujança da mata para fora".
Os cenários são realmente deslumbrantes. O fundo é uma representação de uma mata tropical fechada como as que aparecem nos quadros de Rugendas. A concepção cênica é de Hélio Eichbauer. As óperas de Carlos Gomes ainda despertam reações apaixonadas do público na Itália, onde o compositor brasileiro fez carreira. "Tenho 75 óperas no meu repertório e fico tão feliz de poder participar dessa que quero cumprimentar a todos"
entusiasma-se o cantor Mario Bertolini, que é baixo e fará o papel do conde Rodrigo na montagem de "O Escravo". "Quando vi o cenário, fiquei petrificado", disse Bertolini. Com o cancelamento de Aprile Millo - a produção informou que ela ainda poderá vir para duas récitas finais -, "O Escravo" terá como estrela máxima a também norte-americana Nina Edwards, uma estrela em ascensão no mundo da ópera, recém-saída de uma temporada de muito sucesso no papel-título de "Aída", de Verdi
na Itália. "Ela tem sido chamada de a nova Leontyne Price", informa Bicudo.
Mas há pelo menos um motivo adicional para ver a montagem: o retorno aos palcos brasileiros de um fenômeno genuinamente nacional, a cantora carioca Aída Batista. Ela dividirá o papel principal (o da escrava Ilara) com Nina Edwards. Natural da Baixada Fluminense, uma das regiões mais problemáticas do Rio, Aída cantava no coro da Igreja Batista, frequentada por sua família. De origem humilde, resolveu um dia ver uma montagem de "Aída" na Quinta da Boa Vista. "Queria ver a personagem que tinha o mesmo nome que eu", ela conta. Viu e não teve dúvidas. Iria cantar ópera. Com a cara e a coragem, foi fazer um teste para ser corista do Teatro Municipal do Rio. Precisava saber cantar duas árias e lhe deram uma fita para ensaiar, com árias de "Madama Butterfly" e "Turandot". "Deram-me dois meses, mas eu voltei em duas semanas e fiz o teste", ela conta. "Eles ficaram surpresos e disseram que me ajudariam, mas que eu não agradecesse porque não era necessário", ela lembra.
Em 1987, ela ganhou o concurso lírico Carmem Gomes. Em 1988, venceu o concurso Jovens Concertistas Brasileiras, na Sala Cecília Meireles. Em janeiro de 1992, ganhou uma bolsa de estudos e foi morar em Viena, áustria. Casou-se com um engenheiro austríaco e passou a fazer concertos nas salas européias. Nunca mais voltou a cantar no Brasil. Essa é sua reentré. "Para mim, é uma alegria dupla poder cantar aqui minha primeira ópera e ainda por cima com um papel desses", ela diz. "Ilara é uma mulher apaixonada, mas ao mesmo tempo envolvida com os problemas do seu povo e é isso o que eu penso da vida".
A regência fica por conta dos maestros Eugene Kohn e do brasileiro Gabriel Guimarães, que é diretor artístico da àpera Manhattan, de Nova York, onde vive há 18 anos. O norte-americano Louis Otey e o brasileiro Sebastião Teixeira revezam-se no papel de Iberê. "Eu me apaixonei por esse personagem, Iberê, de emoções complicadas", disse o barítono Otey. Segundo o maestro do coro, Luiz Aguiar, que é um especialista na obra de Carlos Gomes e consultor da produção, essa é a quarta vez neste século que se encena a ópera de Gomes. A última foi em Nova York. Segundo ele, a versão que veremos no Municipal esta semana será uma das mais completas já vistas, incluindo trechos que geralmente são cortados das representações (como A Conjura, a reunião dos chefes índios). Serviço - "O Escravo". A partir de sexta-feira. Ingressos de R$ 10,00 a R$ 120,00. Teatro Municipal (tel. 222-8698).


