àpera de Mozart ganha nova versão do maestro francês René Jacobs
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terça-feira, 14 de setembro de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 15 (AE) - Cos fan tutti (assim fazem todos), mas não o maestro francês René Jacobs. Sua versão da ópera de Mozart, com libreto de da Ponte, se diferencia de todas as leituras anteriores, históricas (como a sua) ou não. Mesmo que você já tenha as antológicas interpretações de Giulini, Bhm e Gardine, o "Cos Fan Tutte" (3 CDs, Harmonia Mundi + 1 CD-ROM grátis) com Jacobs e o Concerto Kln é obrigatório. O regente, um defensor ferrenho do movimento de instrumentos de época, deu liberdade inusitada a seus solistas e a sua orquestra, resultando num teatro musical primoroso, à altura da ópera-bufa sobre a inconstância do coração feminino.
Beethoven (autor de Fidelio, uma ode à fidelidade das mulheres) execrava a obra, chamando-a de imoral e Wagner escreveu que amava ainda mais Mozart por esse não ter escrito para a frivolidade (aparente) de "Cos" música tão elevada quanto a do "Fígaro". O século 19, romântico, não podia mesmo entender essa educação sentimental cínica, tão ao gosto dos iluminados, e chegou mesmo a mudar seu texto para deixar a ópera mais "apresentável". Esse costume hediondo, aliás, chegou ao nosso século e foi apenas o amor de Richard Strauss pela obra que pôs um fim à censura.
Preocupados com o libreto de da Ponte (no espírito de Marivaux e Molire), poucos deram maior atenção à música complexa e sutil de Mozart, em que os personagens se desenvolvem psicologicamente às vistas do público no curto intervalo das três horas em que dura a ópera. Mesmo no finale, em que os amantes, reconciliados, cantam sua alegria, não é possível se ter certeza de que são sinceros ou preferiam manter a troca casual de parceiros. Ah, sim, esse é o tema de "Cos": um velho desafia dois rapazes a pôr a virtude de suas amadas em xeque fingindo ir para a guerra e voltando, disfarçados, para conquistá-las com nova identidade.
Não se trata de machismo, mas de um preceito iluminista que transferia os ideais de liberdade igualmente para as mulheres, que poderiam escolher seus parceiros ("Prenderó quel brunettino", diz uma das moçoilas). Jacobs optou por uma orquestra pequena, capaz de recriar, com doçura e intimismo, esse imbróglio amoroso, lapidando cada mínima frase, orquestral ou cantada, para dar fluidez ao diálogo musical. O teatro reina absoluto nessa versão e até os recitativos são cuidadosamente trabalhados. Além disso, o maestro acrescentou um piano forte às forças orquestrais (tocado pelo brasileiro Nicola de Figueiredo, em substituição ao enfadonho cravo baixo-contínuo), dando um toque harmônico inovador e mais colorido à partitura. Mais: o teclado comenta, sempre que possível (e como fazia Mozart) as ações dos personagens.
Esse "Cos" respira e avança resoluto, idealmente colocado, como quer Jacobs, entre o passado barroco e a ópera sinfônica do século 19. Delicie-se com "Soave Sia il Vento". E para quem quiser ir mais a fundo em sua composição, o álbum inclui um delicioso CD-ROM (Discovering Cos Fan Tutte), com uma biografia minuciosa do compositor e o contexto histórico do seu tempo; disseca por inteiro a obra e cada um de seus personagens; traz um liberto bilíngue que permite a você acompanhar as desventuras de Fiodiligi e Dorabella; e, entre outras iguarias, uma entrevista com René Jacobs, discutindo a sua versão. Que pena que nem todos façam assim. Imperdível.


