São Paulo, 15 (AE) - A grande ópera abolicionista de Antônio Carlos Gomes, "O Escravo", tem sua reentré amanhã (16) no Teatro Municipal de São Paulo após 82 anos de sua primeira encenação na capital paulista, em 1917. A última vez em que foi montada não foi no Brasil, mas em Nova York, em 1988. Encenada desta vez pelo grupo àpera Brasil, que tem como base de operações o Teatro Artur Azevedo, em São Luís do Maranhão, essa montagem de "O Escravo" busca privilegiar "a brasilidade" do espetáculo de Carlos Gomes, nas palavras de Fernando Bicudo, diretor-geral da empreitada.
"Carlos Gomes foi perseguido por diversas razões ao longo da sua vida: por ser descendente de negro e índio, por ser estrangeiro na Itália, por anunciar-se como o sucessor de Verdi em plena reunificação italiana e por ser acusado de monarquista", diz Bicudo. "É hora de se fazer justiça a Carlos Gomes", afirma, em tom discursivo. Bicudo escalou um elenco multinacional para tentar fazer, segundo ele, a mais completa montagem de "O Escravo" já encenada. O principal nome do elenco é a norte-americana Nina Edwards, que vem de uma temporada verdiana bem-sucedida na Itália - que lhe valeu o elogio de ser "uma nova Leontyne Price".
Também deveria apresentar-se a soprano norte-americana Aprile Millo, que cancelou a participação por problemas familiares - seu pai adotivo morreu no dia 7. Além de Nina Edwards, integram o elenco a grega Olga Bakali, a francesa Rose-Marie Toraro e os norte-americanos Louis Otey (barítono) e Stephen Brown (tenor), entre outros. A orquestra é a Sinfônica de Minas Gerais e os maestros são o americano Eugene Kohn e o brasileiro Gabriel Guimarães, que vive há 18 anos em Nova York, onde dirige uma companhia de ópera. Com patrocínio da Petrobrás, da Eletrobrás e do governo do Maranhão e com apoio do Teatro Municipal de São Paulo, parte da renda de "O Escravo", que custou R$ 4 milhões, reverterá em benefício do Unicef.
Luiz Aguiar, maestro do coro e especialista na obra de Carlos Gomes, tem em seu poder a primeira partitura da estréia da ópera, em setembro de 1889. Segundo ele, a partitura tem uma ária que jamais foi cantada. Essa ária não estará ainda no espetáculo, mas Aguiar diz que o público vai ouvir trechos de "O Escravo" que não são tocados há pelo menos 50 anos. O cenário, que reproduz uma grande cena de mata tropical, evoca as pinturas de Rugendas e mostra uma visão tropicalista do Brasil. As coreografias são de Antonio Gaspar, o mesmo que coreografou para a ópera-boi "Catirina", encenada por Bicudo e pela àpera Brasil, no ano passado.
Entre os nomes do elenco nacional, destaca-se o da carioca Aída Batista, cantora da Baixada Fluminense que se apresentava em coro de igreja até ser descoberta, em 1987. Hoje, vive em Viena e canta nas mais afamadas salas de concerto da Europa, mas jamais cantou uma ópera no Brasil. "Tenho orgulho de estrear como Ilara, uma mulher apaixonada, mas ao mesmo tempo envolvida com os problemas do seu povo", disse Aída. Serviço - "O Escravo". De Carlos Gomes. Direção de Fernando Bicudo. Regência de Eugene Kohn e Gabriel Guimarães. Com a Orquestra Sinfônica e Coral Lírico de Minas Gerais, e Ballet do Teatro Arthur Azevedo de São Luiz do Maranhão. Sexta, sábado, e segunda, às 20h30; domingo, às 17 horas. De R$ 10,00 a R$ 120 00. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, tel. 222-8698.

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