àpera "Carmen" mistura samba e flamenco em nova versão que estréia no CCBB
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domingo, 02 de maio de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 03 (AE) - A cigana Carmen vai conquistar o soldado d. José, desprezá-lo e ser morta por ele em ritmo de samba, maxixe e valsa brasileira. Essa é a idéia central da versão da obra de Georges Bizet, que estréia no dia 13, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, com direção de Augusto Boal e Cláudia Ohana no papel título. É o primeiro trabalho de Boal no Brasil em dez anos e seu primeiro musical desde "O Corsário do Rei", que teve carreira curta e polêmica no Rio em 1985. Desta vez, ele realiza uma idéia antiga. "No início dos anos 80, fiz para a Unesco um espetáculo em que músicos brasileiros davam sua versão da ópera "Carmen" e, desde então, fiquei com vontade de aproveitar o sincretismo dessa obra e trazê-la para o Brasil", conta Boal, num intervalo dos ensaios, que tomam suas tardes e noites desde janeiro. Ele lembra que é uma história passada em Sevilha, cidade da Espanha com muita influência árabe, contada por um francês. Daí a acrescentar um molho brasileiro foi só um pulo.
A idéia começou a se concretizar em 98, quando Marcos Leite assumiu a direção musical, Celso Branco encarregou-se da tradução do libreto e Luiz Boal começou a cuidar da produção. "Nós somos os três mosqueteiros neste trabalho, pois trabalhamos em perfeita sintonia", diz Boal, que traz à história detalhes do romance de Prosper Merimé que foram omitidos por Bizet, para amenizar a ópera. "Não queremos fazer um juízo moral da personagem, apenas contar sua história".
Marcos Leite considera interessante adaptar para instrumentos e ritmos brasileiros a música de Bizet. "Se um sucesso dura mais de cem anos é porque tem qualidade", ressalta ele. "E eu me senti à vontade até para compor novos recitativos para acrescentar as informações que a versão original não dava". Assim, a "Marcha do Toureador" é um samba rasgado e a "Seguidilha", uma valsinha brasileira.
O toureador Escamilo foi o único personagem que teve adaptação para o Brasil de hoje. "Ele virou um jogador de futebol, o goleador, porque o público precisava identificar-se com ele pela emoção e não pela razão", afirma Augusto Boal. Já Carmen fica um pouco entre a brejeirice brasileira e a sensualidade espanhola e Cláudia Ohana confessa que demorou a achar o personagem. "Ela é sedutora, brincalhona, feliz, alegre e só agora começo a me divertir com ela", conta. "Eu fiquei sem saber se dava um tom de flamenco ou de samba e o Boal me disse para fazer o que quisesse porque a personagem pode tudo".
É a primeira vez que os dois trabalham juntos, embora já tivessem planos desde 1983, quando Boal montou em Paris um espetáculo baseado em "Cândida Erêndira", de Gabriel García Márquez, e Cláudia viveu o mesmo personagem no cinema. Apesar de já ter feito vários musicais (o último foi As Desgraças de uma Criança, com direção de Wolf Maya), Cláudia confessa que nunca pensou numa ópera. "É uma forma completamente diferente de cantar e exige muito, pois além de a música ir do grave ao agudo
o canto ocorre durante a ação", diz ela.
Do elenco, só Cláudia não se submeteu aos testes feitos por Boal no fim de 98. "Eu precisava de gente que cantasse e interpretasse bem e tivesse a voz adequada ao personagem", lembra o diretor. O cantor lírico Raul Serrador foi o escolhido para ser d. José, um personagem que ele considera tão rico como Carmen. "É um homem de princípios rígidos cuja vida é atropelada por um furacão", salienta Serrador, que nunca havia cantado Bizet. "Mas já fiz dois Mozarts: o Neporelle, de "Don Giovanni", e o papel principal em "As Bodas de Fígaro".
Boal comemora essa volta aos palcos como um filho pródigo. Nos últimos anos, ele se dedica a orientar os mais de 70 núcleos do Teatro do Oprimido que existem pelo mundo afora, mas acha que chegou a hora de mostrar serviço. "Se consegui convencer as pessoas de que todo mundo pode ser artista, preciso também exercer minha arte que é o teatro". E fica feliz em ter no elenco filhos de dois atores que estavam com ele desde os tempos do Opinião: Ana Borja, que faz Micaela, é filha de Antônio Pedro, e Duda Mamberti é filho de Sérgio. "Minha pretensão é não parar aqui e, um dia, trabalhar com a terceira geração de atores".


