Apartheid alienígena
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Há 20 anos, uma espaçonave gigante surgiu no céu de Johannesburgo, capital da África Sul. E lá ficou, parada e suspensa, até que um grupo de militares a invadiu. A tripulação, formada por milhares de extraterrestres doentes e subnutridos, foi levada para o solo e alojada em uma espécie de campo de refugiados. Não demora muito e o lugar vira uma grande favela, daquele tipo que a gente por aqui conhece muito bem.
Quando a população bate na casa dos 2 milhões de alienígenas, a situação se torna insustentável para o governo. A criminalidade aumenta e os humanos passam a segregar ainda mais os visitantes, como no antigo regime do apartheid. Genro de um figurão, o agente Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) recebe a missão de coordenar a transferência dos ETs para uma área mais afastada. Mas é infectado por um fluido misterioso, e inicia uma transformação que vai mudar o curso da história.
Não dá para contar mais do que isso sobre ''Distrito 9'', em cartaz a partir de hoje no País (veja a programação de cinema na pág. 2). De qualquer forma, a surpresa é o filme em si, uma das sensações do ano entre o público e a crítica internacional. Com uma trama envolvente e efeitos especiais inéditos, essa ficção-científica com fundo político (reforçada por uma boa dose de sangue e tripas) traz um vigor que há tempos não se via entre as produções do gênero.
Primeiro longa-metragem do diretor sul-africano Neill Blomkamp, vindo da publicidade, ''Distrito 9'' chega com a grife do cineasta Peter Jackson (''O Senhor dos Anéis''), que assina a produção. Produção, aliás, que custou pouco para os padrões de Hollywood. Cerca de US$ 30 milhões, valor seis vezes menor do que o de blockbusters recentes como ''Transformers'' e ''Terminator - Salvation''. E que foi recuperado nas bilheterias em apenas três dias de exibição.
Não que seja um filme perfeito. Os personagens são construídos a partir de clichês, e a narrativa quase abusa da linguagem, tão em voga, do ''falso documentário''. Mesmo assim, ''Distrito 9'' prova que ainda é possível ser criativo com recursos limitados. Mais do que isso: mostra que o cinema está longe de perder sua capacidade de surpreender.


