Arquivo FolhaAndréa Beltrão: ‘‘Eu já ganhei prêmios em filmes
que nunca ninguém assistiu, nem minha mãe’’As atrizes Marieta Severo e Andréa Beltrão participaram, em Miami, nos Estados Unidos, do 1º Festival do Cinema Brasileiro, que começou no último dia 29 e termina hoje. Durante a entrevista, no Hotel Intercontinental, elas disseram que o cinema brasileiro vive hoje uma fase de euforia, de retomada após a era do presidente Fernando Collor. ‘‘Aquele foi um período de terra arrasada, que tivemos apenas uma produção durante o ano. Foi um crime contra a cultura brasileira’’ - criticaram.
Para uma indústria cinematográfica que já teve 100 produções/ano, e que entre 95 e 96 chegou a uma média de 40 filmes, a atual fase é de reconquista. Para Marieta Severo, a euforia do cinema brasileiro é justificada devido ao avanço que está ocorrendo em relação aos anos 90/91, classificado por ela como um período de ‘‘profundas trevas’’.
Mas ela entende que esse ainda é um período de caminhada.‘‘Ainda temos que avançar muito para chegarmos a ter uma indústria cinematográfica que seja forte, que não dependa de leis e outros tipos de apoio. Mas até chegar o nosso cinema necessita de incentivo, como a da Lei do Audiovisual, que tem sido fundamental’’- analisa Marieta.
Devido à baixa produção no início dos anos 90, Andréa Beltrão disse que houve todo um desmantelamento no setor.‘‘Profissionais experientes em som e outros técnicos, simplesmente tiveram que migrar para outra área porque não tinham o que fazer. Foi muito sofrido o ano em que o Brasil produziu apenas um filme. E todos ficavam se perguntando: Quando haverá uma próxima produção? Será que haverá uma próxima? Por isso estamos hoje comemorando essa retomada. Há motivos para termos esperança dentro da nova fase do cinema nacional’’.
Apesar de o ‘‘Qu4trilho’’ ter sido indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, Marieta e Andréa apontaram ‘‘Carlota Joaquina’’ como uma produção que promoveu um certo divisor nas águas.‘‘O filme ganhou uma cara de superprodução com um orçamento de apenas 600 mil. O público não pode imaginar que tudo aquilo foi feito de papel, que em algumas partes do cenário você não podia encostar: ou manchava a roupa ou caía alguma coisa. ‘Carlota’ reflete essa capacidade de criar com pouco dinheiro e alcançando um resultado final surpreendente’’, observa Marieta.
Apesar de se falar muito do cinema brasileiro, para Marieta não é possível definir uma linguagem única nos filmes produzidos recentemente.‘‘‘Carlota Joaquina’ não tem nada a ver com ‘Terra Estrangeira’, que não tem nada a ver com ‘Tieta’, que não tem nada a ver com ‘Pequeno Dicionário Amoroso’. No entanto, são filmes que só poderiam ter sido feitos no Brasil porque retratam coisas brasileiras, mas que também têm, com particularidades próprias, alguma coisa de universal, o que é uma coisa própria da arte’’- diz Marieta.
Quintal brasileiroMarieta acredita que falando do nosso quintal brasileiro é possível atingir o público de outros países. ‘‘Tem sido assim. Os grandes cineastas, como Felini, falam do seu lugar pequeno, de uma maneira tão intensa e tão profunda que atinge a todos’’ - analisa a atriz.
Pela língua, pela mesma problemática social e política ela acredita que está havendo uma maior aproximação cultural entre o Brasil e os países latinos.‘‘Esse é o nosso intercâmbio natural, não podemos virar as costas para o nosso vizinho. Precisamos mostrar-lhes o que produzimos e também conhecer aquilo que eles estão fazendo’’ - raciocina.
Para Andréa Beltrão, o importante é que essa nova safra de filmes está sendo vista pelo público, tem despertado comentários e provocado reações.‘‘Isso é muito importante para o artista. Eu já ganhei prêmios em filmes que nunca ninguém assistiu, nem minha mãe. Então, é importante essa participação, esse retorno, esse interesse das pessoas em relação ao cinema’’- diz ela. ‘‘Eu adoro fazer novela, não tenho nenhum preconceito contra a televisão, mas não adianta ser visto diariamente por 40 milhões de pessoas e ficar sempre naquela ladainha, sem dizer algo mais profundo’’- complementa.
As duas atrizes elogiaram a iniciativa da realização do 1º Festival do Cinema Brasileiro em Miami. Andréa fez questão de destacar que só está acontecendo o festival porque esses filmes tiveram boa repercussão no Brasil.‘‘Sem isso não teria nenhum sentido mostrar as produções fora do país. Primeiro, esses trabalhos foram valorizados no nosso quintal, que é o Brasil’’- informa Andréa.

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