Ir a Salvador, na Bahia, e não conhecer o Pelourinho é como ir a um baile e não dançar. O local, que na época colonial era utilizado para punir escravos com castigos físicos e os maus comerciantes com a execração pública, hoje é símbolo e cartão postal da cidade. O Pelô, como é chamado pelos soteropolitanos e turistas mais enturmados, é também local de concentração do público nos dias de shows e festas que, aliás, se espalham por todo o calendário baiano.
Mas quem conhece hoje o Pelourinho, com suas lojas de arte e artesanato, bares, restaurantes e outros tipos de comércio não pode imaginar que, há apenas cinco anos, aqueles belos casarões pintados em cores vivas, formavam uma grande favela que abrigava, sem as menores condições de higiene, mais de seis mil pessoas.
A recuperação do Centro Histórico de Salvador, onde está localizado o Pelourinho, com seus três mil imóveis - o maior conjunto arquitetônico colonial da América Latina, tombado pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade - é exemplo para o Brasil inteiro de como a parceria entre o Estado e empresas privadas pode efetivamente dar certo.
A recuperação e restauração já está na quinta etapa, com a licitação para a sexta fase já autorizada pelo governador Paulo Souto. Dos mil imóveis do Centro Histórico que precisavam de intervenção imediata do Governo, cerca de 500 já estão prontos ou em fase de conclusão. No total, já foram gastos cerca de US$ 50 milhões nessas obras.
Fases de trabalho O trabalho, coordenado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac) do Governo do Estado e pela Companhia de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Salvador (Conder), foi dividido de acordo com a necessidade de cada prédio do local. ‘‘Nem todos podiam ou necessitavam ser restaurados. Assim, seguindo uma série de critérios, optamos por várias fases de trabalho’’ - diz Adriana Castro, diretora-geral do IPAC.
Estão sendo feitos serviços de restauração em imóveis que guardam suas características originais e cujas interferências devem obedecer critérios rígidos de restauro, como é o caso do Solar do Gravatá, na Baixa do Sapateiro, onde está sendo feito um cuidadoso trabalho, visando preservar seus belíssimos detalhes. ‘‘Este é o mais difícil e minucioso. Nós temos que ter o maior cuidado até ao raspar as paredes porque, por baixo de várias camadas de tinta, podem aparecer murais belíssimos pintados com a maior delicadeza, como aconteceu com o Solar’’ - explica Orlando Ramos, diretor técnico da empresa responsável por este tipo de trabalho, a Restauro.
Outros imóveis estão sendo reconstruídos a partir de remanescentes da construção original. ‘‘Nestes casos, recompomos o volume externo, seguindo todos os parâmetros históricos, e damos ao interior novos espaços, com materiais modernos e tecnologia construtiva atual’’ - afirma Ramos. Segundo ele, nos locais onde os imóveis foram totalmente destruídos ou ainda existiam fragmentos de antigas construções, serão construídos estruturas modernas mas recompondo-se a fachada para harmonizar com o conjunto.
Algumas edificações, principalmente as não utilizáveis por deterioração e falta de elementos passarão por interferência nos espaços internos. ‘‘Nestes, vamos reforçar a estrutura original quando possível e partir para recuperação funcional dentro dos parâmetros técnicos atuais’’ - explica o restaurador. Além disso, nos imóveis em bom estado de conservação, será feito um serviço de revisão de instalações elétricas, hidráulicas e sanitárias, execução de instalações telefônicas e outros componentes para boa utilização. ‘‘Este caso trata dos edifícios já descaracterizados ou totalmente reformados, que não são mais possíveis de serem restaurados em sua forma original’’ - diz Adriana Castro.

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