Aos pés da palavra
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de julho de 1998
Nelson Sato 
Convém chegar mais perto. A poesia de Ana Cristina César é para leitores sutis, bisbilhoteiros, curiosos em espiar as frestas de intimidade e desvendar as citações espalhadas entre os versos.
Quinze após sua morte, Ana Cristina César está de volta com o relançamento de suas obras completas pela editora Ática em parceria com o Instituto Moreira Salles, que prevêem a edição de três títulos até o primeiro semestre do próximo ano.
O volume A Teus Pés, lançado originalmente em 1982 pela Brasiliense, abre a série com um novo tratamento gráfico incluindo um cadernos de fotos inédito e um texto introdutório do poeta Armando Freitas Filho. O livro chega em boa hora, num momento em que a poesia de viés confessional e intimista parece finalmente alcançar reconhecimento no país depois de amargar décadas de preconceito pelas vanguardas.
ReproduçãoAna
Cristina
em 1982Em A Teus Pés, Ana Cristina César apresenta seus joguinhos de esconde-esconde recheando os textos com elipses, personagens enigmáticos e frases pilhadas de outros autores numa saborosa colagem de anotações. O formato se aproxima, como anota Freitas Filho, do querido diário adolescente com seus garranchos e o rascunho prevalecendo ao passado ao limpo.
ReproduçãoQuando lançado na década passada, o título obrigou cabeças arejadas da crítica a fazer uma revisão da chamada poesia marginal, mostrando que havia uma ala culta na tendência. Desde então, Ana passou a ser vista como o talento mais refinado da geração de poetas formada ao longo dos anos 70.
Foi com seu suicídio, porém, que a veneração atingiu o ápice gerando comparações com a poeta norte-americana Sylvia Plath. Ana se matou em 83, com 30 anos. Sylvia, com 31, despediu-se da vida em 63. Como de praxe, a evocação das semelhanças serviu apenas para alimentar um certo glamour perverso na mídia ofuscando a obra da autora em detrimento de sua biografia.
Mais recentemente, a poética de Ana ganhou acolhida nas universidades, onde foi tema de cinco teses de mestrado. No final do ano passado, seus admiradores foram surpreendidos com a notícia de que a poeta alcançava leitores no exterior com traduções de sua obra na Inglaterra e na Alemanha. Por aqui, o projeto de reedições da editora Ática prossegue com o relançamento da coletânea Inéditos e Dispersos (publicado pela Brasiliense em 85) e um volume de ensaios críticos intitulado provisoriamente de Crítica e Tradução.


