Ninguém cresce quando quer. Só quando chega a hora. Para alguns meninos empurrados para as guerras como soldados, o momento crucial é antecipado. Uma tragédia pessoal que a companhia francesa Les Trois Clés transformou numa história fantástica e poética na peça ‘‘La Gigantea’’.
  ‘‘La Gigantea’’ é mais um espetáculo do Filo que tem a guerra como cenário. Criada em 2004 pela brasileira Eros Galvão, radicada na França há 21 anos, e o chileno Alejandro Nunez, a companhia se propõe a narrar um conto sem palavras, através por marionetes, dança, música e acrobacias.
  Vivendo em um região inóspita, o menino Makou e a mãe saem todos os dias em busca de água. Um dia, os dois encontram um exército de seres híbridos - meio humanos e metade animais.
  O garoto é separado da mãe por um tirano e recrutado como soldado numa guerra pelo monopólio da água.
  Drama pessoal que acontece com garotos, como Ishmael Beah, uma criança de Serra Leoa, que registrou em livro suas memórias, uma das referências que os dois artistas buscaram para criar ‘‘La Gigantea’’.
  O universo do pintor flamenco Hieronymus Bosch, que viveu entre os séculos XV e XVI, e retratou os pecados, também inspirou os criadores do espetáculo.
  É nesse quadro escatológico que o menino descobre o poder dos sonhos ao procurar uma lendária árvore mágica.
  Para muitas culturas, a árvore é símbolo da vida, esperança que já no nome, o espetáculo quer propor no enredo humanitário e ecológico.
  Eros é formada pela Escola Superior de Artes Charleville Mèzlères e Nunez na Universidade Peris 8. Os dois fizeram juntos um número de trapézio no Cirque Barroque, decidindo montar a companhia teatral.
  Criado para o festival da Caledônia,‘‘La Gigantea’’ é o segundo espetáculo do grupo. ‘‘O nosso trabalho plástico agrada também porque traz um certo humor e ironia mesmo ao falarmos sobre crianças soldados. Transpomos a realidade com um distanciamento da vida real. Quanto mais longe do realismo chegamos, mais perto estamos de conseguir transmitir o que queremos. Com essa transposição fomos achando essa forma bastante lúdica’’, afirma Eros Galvão.
  Ao contrário de outras montagens da companhia, ‘‘La Gigantea’’ usa somente por bonecos no palco.
  Apresentado em festivais importantes, como o de Avignon, o espetáculo comove, diverte e desperta o interesse do público pelas questões discutidas de maneira lúdica.
  Eros conta que um espectador francês, que conhecia apenas o Nordeste do Brasil, quis saber se a companhia se inspirou também na região ao abordar a seca e o sofrimento das pessoas por falta de água.
  ‘‘São questões que estão presentes em todas as culturas. São atemporais’’, destaca Eros, lembrando que a companhia chegou no início do ano para um período de permanência de seis meses no Brasil, desenvolvendo projetos e oficinas de teatro de bonecos.

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